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UM TEXTÍCULO SOBRE PORNOGRAFIA – PARTE II por Inaê Diana Ashokasundari Shravya


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Duas falácias costumam ser associadas à pornografia cinematográfica: 1) homens cis heterossexuais transam mal por conta da pornografia; 2) a pornografia é a teoria e o estupro é a prática. Por que falácias? Elas presumem que a pornografia cinematográfica seja capaz de influenciar pessoas. Não há nada que comprove isso, exceto a especulação pautada no moralismo. Se a pornografia cinematográfica fosse realmente responsável por transas ruins e estupro, também seriam os filmes de guerra responsáveis pelas guerras, os filmes de serial killer responsáveis por assassinatos, e, o que seria mais lindo, filmes de caráter revolucionário (utópicos) seriam responsáveis pela revolução social. Mas não é assim que a banda toca. Videogames considerados violentos possuem um caráter mais terapêutico, de extravasão da raiva, do que de influenciadores de comportamento violento. Pessoas que costumam cometer massacres em escolas têm todo um histórico de violência sofrida, participação em fóruns onde sua personalidade é tratada como lixo, vulnerabilidade social, dentre outras coisas mais. Mas o único elemento pontuado é o videogame. O mesmo é feito com a pornografia. Contudo, se prestássemos atenção nos incels, por exemplo, que fomentam a cultura do estupro, e que também ojerizam a pornografia e a masturbação – coisa que o Kellogs, criador dos sucrilhos, adoraria ver se realizar , compreenderíamos que a seletividade, entonação e combinação de elementos da pornografia cinematográfica com o estupro – onde este consta como sua finalidade- é uma narrativa moralista, que não possui nenhuma consistência se confronta com a realidade social do estupro: este é causado por um sistema social sexista e misógino.

Bibi Bakare-Yusuf, feminista nigeriana, nos diz que “se assumirmos que as mulheres são automaticamente vítimas e os homens vitimizadores, caímos na armadilha de confirmar os próprios sistemas aos quais propusemos criticar. Falhamos em reconhecer como agentes sociais podem desafiar de maneiras complexas as suas posições e identidades atribuídas e, indiretamente, ajudamos a reificar ou totalizar instituições e relações opressivas. Ao invés de ver o patriarcado como um sistema fixo e monolítico, seria mais útil mostrar como o patriarcado é constantemente contestado e reconstituído”.

Dentro da própria pornografia cinematográfica há ‘homens” que escapam à imagem dum pau-sempre-ereto, como é o caso do Bluezão, em cujos vídeos, disponíveis no Xvideos, ele não teve uma ereção sequer. Todos os vídeos são caseiros. Neles, ele sempre comenta que tá brocha e, em vez de simplesmente encerrar por aí, as suas companheiras propõem de comer o cu dele com vibradores e dildos, ao que ele responde “bora lá!”. Um filme que se tornou bem popular há alguns anos é o Hungry Bitches, também conhecido como “2 Girls 1 Cup”. É um filme brasileiro que consiste na apresentação duma interação erótica entre duas mulheres cis que, longe de passar pelas expectativas heteronormativas, realizam corprofagia, consomem vômito. Esse filme se tornou bastante popular, passando por blogueiros e fóruns, muito mais até do que filmes com atores e atrizes conceituadas da pornografia cinematográfica.

As obras de Frida Khalo possuem um caráter pornográfico, onde ela faz uso do seu corpo como expressão artística. Contudo, como ela foi uma mulher cis com diversidade funcional, sua arte costuma ser associada exclusivamente ao sofrimento, pois existe toda uma representação social de corpos com diversidade funcional que os destitui de práticas sexuais, o que com certeza não diz respeito a vida de Frida, cuja atitude não era de vitimização, mas de potencialização estética das suas condições. Há um documentário espanhol que busca desmantelar essa imagem, que é o “Yes, we fuck!” (Sim, nós fodemos!), dirigido por Antonio Centeno e Raúl de la Morena. O título é uma paródia ao famoso slogan da campanha presidencial de Barack Obama de 2008, “Yes, we can” (Sim, nós podemos). Há também toda uma mistificação em torno do sexo lésbico, que o reduz à fricção, como se lésbicas não experimentassem outras práticas sexuais. Há também o imaginário de que lésbicas evitam o sexo, algo que remete aos conventos, onde muitas lésbicas, na tentativa de se protegerem socialmente, se enclausuravam e se tornavam freiras. É a heteronormatividade, calcada no dimorfismo sexual e cissexista, que vai afirmar que lésbicas têm suas práticas sexuais reduzidas a fricção, pois, segundo a heteronormatividade, o órgão genital denominado pênis diz respeito a homens, ao passo que o órgão genital denominado vagina diz respeito a mulher. Um penetra, o outro é penetrado. Aliás, o termo vagina implica isso, se levarmos em conta sua etimologia. O anatomista alemão Johann Vesling (1598 – 1649) usou a palavra vagina pela primeira vez para descrever o órgão genital considerado feminino em 1641, como uma referência a “bainha que cobre a espada (gladius)”, ou seja, o pênis sendo envolvido pela vagina durante o ato sexual.” Este é um dos motivos de Monique Wittig afirmar que as lésbicas não possuem vagina. O que não significa dizer que, por exemplo, lésbicas não se relacionassem com mulheres trans, e que nessa relação houvesse penetração do órgão genital denominado pênis, pois, da mesma forma que a lésbica não possui vagina, a mulher trans também não possui pênis, pois o pênis, enquanto recorte e classificação duma parte do corpo – bem com sua constituição dentro do imaginário político heterossexual – , se encontra inserido numa relação heterossexual, isto é, “pênis” e “vagina”, enquanto classificações, dizem respeito à prática sexual cuja única finalidade é a reprodução. O uso dessas partes para fins não reprodutivos lhes destitui, em alguma medida, as classificações. E aí nos deparamos com os chamados “transtorno”, que só fazem sentido para a presunção duma normalidade, que, para o imaginário político heterossexual, é a heterossexualidade. Além do mais, não é porque uma pessoa possui um órgão genital denominado pênis que ela vá usá-lo como se espera que seja usado pelo imaginário político hetrossexual. Como bem pontua Tânia Navarro Swain, “o gênero é performativo, pois cria o sexo e a importância social a ele atribuído”.

Falar que a pornografia é responsável por homens cis heterossexuais não transarem direito é tomá-los como centro de referência. E nós, como transamos? O que é uma transa de boa qualidade? Quando um homem cis hetero chega numa mina cis já chupando o clitóris sem perguntar a ela o que ela quer, também não é uma forma de presumir que sabe mais sobre os desejos do outro do que ele mesmo? Não seria o mesmo agir mecânico durante a prática sexual? E se a mina curtir shibari, lâminas, velas, ou preferir ser dominatriz ou curte comer cu? Dizer que a pornografia é responsável pelos estupros é ignorar que o estupro existe antes da pornografia cinematográfica. Nas palavras de Virgine Despentes: “dizem com frequência que a pornografia aumenta o número de estupros. Hipócrita e absurdo. Como se a agressão sexual fosse uma invenção recente, e como se tivesse sido introduzida em nossos espíritos através dos filmes”. Será que os portugueses que invadiram e colonizaram este território hoje denominado Brasil assistiam pornografia cinematográfica? Aliás, não apenas pessoas consideradas ‘mulheres” foram estupradas durante o colonialismo, como também pessoas consideradas “homens” que foram escravizadas. E aí voltamos ao que a Bibi Bakare-Yusuf fala sobre não naturalizarmos posições que dizem respeito ao âmbito estritamente social.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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