Julho 27, 2021
Do Passa Palavra
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Por Emerson Martins

No último sábado um coletivo autointitulado “Revolução Periférica” realizou um ato simbólico e ateou fogo ao monumento de Júlio Guerra em homenagem ao bandeirante Manuel de Borba Gato. O grupo filmou a ação e publicou o vídeo no seu Instagram que, em menos de um dia, já tinha quase 400 mil visualizações. O ato faz referência explícita a manifestações semelhantes de derrubada de monumentos considerados racistas mundo afora e foi comemorado aqui no Brasil por grande parte da esquerda.

A estátua é motivo de controvérsia desde que foi inaugurada, em 1963. A especialista na obra de Júlio Guerra, Cristina Costa, conta que o artista, que nasceu em Santo Amaro antes de o município ser anexado e tornar-se bairro da capital paulista, fez o monumento como resposta à anexação: “Foi para refrear essa invasão paulistana que ele imaginou, talvez, um bandeirante nas portas da cidade (…) Jamais pensou em honrar um caçador de escravos”. Ela explica ainda que a obra foi erguida com recursos próprios e “uma técnica absolutamente pioneira de mosaico” de influência nitidamente popular. “O Borba Gato não é uma obra épica, mas popular — o único monumento de arte popular de São Paulo”. E conclui, rebatendo aqueles que defendem sua derrubada: “Se ele ofende o gosto das elites e as ideologias do momento, vamos ressignificá-lo, alterando seu nome. Vamos chamá-lo de Caipira de Santo Amaro que é o que ele realmente é”.

À estupidez estética dos carbonários, somam-se ainda a estupidez política e organizativa. A ação se deu no mesmo dia em que por todo o país ocorreram manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro. Entretanto, as manifestações praticamente desapareceram da cobertura midiática diante do espetáculo incendiário. Quem se beneficiou disso foi o próprio bolsonarismo, que conseguiu desviar o foco das denúncias que pesam contra o governo e agora acusa a esquerda de “terrorismo”.

Se no plano político a ação foi inoportuna, no plano organizativo ela foi amadora. Os autores não apenas deixaram pistas nas redes sociais, como acabaram incriminando o motorista que dirigia a van e acabou sendo preso na madrugada de domingo. Segundo a advogada que acompanha o caso, Thiago Vieira Zen foi contratado para transportar os pneus e não sabia da ação. Agora ele aguarda o julgamento em liberdade e deve obedecer a uma série de medidas cautelares, não podendo estar fora de casa depois das 20h. Como bem apontou Celso Lungaretti, ao relembrar um episódio em que o guerrilheiro Carlos Lamarca vetou uma ação do seu grupo, que planejava explodir a estátua de Duque de Caxias, em São Paulo, em meados de 1969: “uma mera provocação não valia o preço que o nosso pessoal, indefeso, poderia ter de pagar por ela”.

O entusiasmo da esquerda por essa ação desastrada diz muito sobre o buraco em que nos metemos. Perto de tanta estupidez os treze metros do Borba Gato quase desaparecem da vista.

Júlio Guerra ao lado de sua obra



Fonte: Passapalavra.info