Abril 29, 2021
Do A Inimiga Da Rainha
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Por Henrik Ibsen, 1882

[No original, o protagonista é um homem — Dr. Stockmann]

Leia o Primeiro Ato aqui.

Ilustrado por Marina Mayumi

(A mesma decoração do ato anterior. A porta da sala de jantar está fechada. É de manhã)

SRA. STOCKMANN (Com uma carta lacrada na mão, entra pela porta da sala de jantar, caminha até a primeira porta à direita e a entreabre) – Estás aí, Thamy?

DRA. STOCKMANN (Falando de fora) – Sim, acabo de chegar. (Entra) Alguma novidade?

SRA. STOCKMANN – Chegou uma carta do teu irmão. (Entrega a carta)

DRA. STOCKMANN – Ah! Muito bem! Vamos ver… (Abre o envelope e lê:) “Junto o manuscrito de que me inteirei…” (Continua a ler em voz mais baixa) Hum…

SRA. STOCKMANN – Que diz ele?

DRA. STOCKMANN (Botando os papéis no bolso) Nada. Que quer falar comigo aqui em casa ao meio-dia.

SRA. STOCKMANN – Então não esqueça de que deverá estar em casa antes do meio-dia.

DRA. STOCKMANN – Não, pode deixar. Acho que nem vou sair. Já fiz as minhas visitas da manhã.

SRA. STOCKMANN – Estou curiosa para saber o que ele está pensando a respeito disso.

DRA. STOCKMANN – Você vai ver que ele estará morrendo de inveja de ter sido eu e não ele a autora da descoberta.

SRA. STOCKMANN – Com certeza. Mas isso não preocupa você?

DRA. STOCKMANN – Não! Tenho certeza de que, no fundo, ele está contente. Tu sabes que o Peter não admite que outra pessoa, a não ser ele, preste serviço à comunidade.

SRA. STOCKMANN – Nesse caso, Thamy, deverias dividir com ele a honra da descoberta. E se você fizesse Peter acreditar que foi ele quem lhe colocou na pista… Ou algo assim?

DRA. STOCKMANN – Por mim, não tem nenhum problema, desde que se façam todas as reformas necessárias.

MORTEN KIIL (Põe a cabeça pela abertura da porta e, com um ar malicioso, pergunta) – Diga-me, é verdade?

SRA. STOCKMANN – (Dirigindo-se a ele) – É você, papai?

DRA. STOCKMANN – Bom dia, sogro. Que surpresa!

SRA. STOCKMANN – Entre, papai.

MORTEN KIIL – Se é verdade, eu entro, se não, vou embora.

DRA. STOCKMANN – Se é verdade? Mas de que se trata?

MORTEN KIIL – Ora essa! Esse assunto das águas. É verdade, essa loucura?

DRA. STOCKMANN – É claro que é verdade. Mas como ficou sabendo?

MORTEN KIIL – Antes de ir para a escola, Petra veio correndo…

DRA. STOCKMANN – É verdade? Petra?

MORTEN KIIL – Sim! Petra nos deu a notícia… A princípio pensei que ela estivesse zombando de mim. Mas como isso não é do seu feitio…

DRA. STOCKMANN – Ora, como pode imaginar?

MORTEN KIIL – Não devemos nos fiar em ninguém. Zombam da gente por qualquer coisa hoje em dia. Então, é mesmo verdade?

DRA. STOCKMANN – Sem dúvida. Sente-se, meu sogro, vamos conversar. (Ela oferece o sofá) Não acha que isso é uma verdadeira sorte para a cidade?

MORTEN KIIL (Abafando o riso) – Uma sorte para a cidade?

DRA. STOCKMANN – Sim, uma sorte que eu tenha descoberto a coisa a tempo.

MORTEN KIIL – Sim, sim, sim. Mas, francamente, eu nunca teria julgado você capaz de pregar uma peça desta ordem ao seu próprio irmão.

DRA. STOCKMANN – Uma peça?

SRA. STOCKMANN – Mas meu pai…

MORTEN KIIL (Com as mãos e o queixo apoiados no castão da bengala, pisca os olhos maliciosamente e olha a doutora) – Vamos ver. Como é esse negócio? Entrou um bicho no encanamento da água, não é?

DRA. STOCKMANN – Sim, um micróbio.

MORTEN KIIL – Petra me disse que entraram alguns desses bichos. Uma porção.

DRA. STOCKMANN – Exatamente. Centenas de milhares…

MORTEN KIIL – Que ninguém pode ver. Não é verdade?

DRA. STOCKMANN – Não, não é possível vê-los.

MORTEN KIIL (Com um risinho) – Diabos! Essa é muito boa!

DRA. STOCKMANN – Que quer dizer com isso?

MORTEN KIIL – Você não imagina que o prefeito vai engolir uma história como essa, não é?

DRA. STOCKMANN – É o que veremos.

MORTEN KIIL – Nem que ele tenha ficado louco…

DRA. STOCKMANN – Acho que todos na cidade serão bastante loucos para isso.

MORTEN KIIL – Todos? Enfim, é bem possível… Pois bem! Eles precisam disso. E será bem feito. Ah! Acham que são mais espertos que os outros. Querem nos dar lições, a nós, os velhos? Expulsaram-me do Conselho como a um cão. Mas vão pagar caro. É isso Stockmann, pregue-lhes boas peças.

DRA. STOCKMANN – Mas, meu sogro…

MORTEN KIIL – Boas peças, já disse. (Levanta-se) Se você conseguir fazê-los embarcar, todos na canoa, o prefeito e os amigos, eu darei cem coroas para os pobres.

DRA. STOCKMANN – É muita bondade sua.

MORTEN KIIL – Isso não quer dizer que eu esteja cheio do dinheiro. Mas se você conseguir, ofereço, pelo Natal, umas cinquenta coroas para os pobres. (Hovstad entra pela porta da frente)

HOVSTAD – Bom dia! (Para) Ah! Desculpem.

DRA. STOCKMANN – Não, pode entrar.

MORTEN KIIL (Com o mesmo ar de zombaria) – Também está na conspiração?

HOVSTAD – Não entendo!?

DRA. STOCKMANN – Sim! Ele também é dos nossos!

MORTEN KIIL – Eu devia ter suspeitado! É preciso ter o apoio da imprensa para que essas coisas deem certo. Pois, minha cara Stockmann, pode-se dizer que você sabe preparar as coisas. E agora vou andando.

DRA. STOCKMANN – Não, caro sogro, fique mais um pouco.

MORTEN KIIL – Não, eu me vou. E cuidem bem dessa farsa. Os diabos me levem se você não tirar proveito dela. (A Sra. Stockmann acompanha o pai até a porta)

DRA. STOCKMANN (Rindo) – Imagine que o velho não acredita numa só palavra do assunto das águas. Acha que eu estou brincando.

HOVSTAD – Era, então, disso que ele…?

DRA. STOCKMANN – Sim, era disso que falávamos. E é também por isso que veio aqui?

HOVSTAD – Sim, sim. A senhora me dá uns minutos, doutora?

DRA. STOCKMANN – Quantos quiser, meu amigo.

HOVSTAD – Já teve notícias do prefeito?

DRA. STOCKMANN – Ainda não. Ele deve vir aqui mais tarde.

HOVSTAD – Desde ontem eu tenho pensado muito no assunto.

DRA. STOCKMANN – E?

HOVSTAD – E daí…? Bem… A senhora, como médica e cientista, só vê essa questão das águas sob o ponto de vista científico e médico. Mas a senhora já pensou nas graves consequências que isso pode trazer à nossa cidade?

DRA. STOCKMANN – Ah! Que quer dizer…? Vejamos, meu caro, sentemo-nos. Não, ali, no sofá. (Hovstad senta-se no sofá. A doutora se acomoda na poltrona do outro lado da mesa) Vamos. Continue.

HOVSTAD – A senhora ontem nos afirmou que essa água estragada provinha de imundícies que existem no subsolo, não é mesmo?

DRA. STOCKMANN – Sim, seguramente. Isso vem lá daquele pântano empestado pelos curtumes do Vale dos Moinhos.

HOVSTAD – Pois bem, doutora, vai me desculpar, mas não é essa a minha opinião. A infecção vem de outro lugar. Conheço outro pântano.

DRA. STOCKMANN – Outro pântano? Onde?

HOVSTAD – Falo do pântano onde está apodrecendo toda a nossa cidade.

DRA. STOCKMANN – Vejamos, meu caro Senhor Hovstad, o que quer dizer com isso?

HOVSTAD – Todos os negócios da cidade passaram, pouco a pouco, para as mãos de um bando de políticos, altos funcionários do governo.

DRA. STOCKMANN – Oh! Não são somente políticos e funcionários públicos.

HOVSTAD – Mas dá no mesmo, pois quem não é funcionário público ou político é amigo ou partidário de funcionário. São esses ricos, que ostentam nomes tradicionais, os mesmos que nos governam.

DRA. STOCKMANN – Sim, mas há, entre eles, pessoas de valor, gente competente.

HOVSTAD – Gente competente. A prova disso é que puseram as canalizações no lugar errado…

DRA. STOCKMANN – Sim, concordo que aí cometeram um grave erro. Mas ainda podemos remediar o mal.

HOVSTAD – E a senhora acha que isso vai ser fácil?

DRA. STOCKMANN – Bem ou mal, fácil ou não, tem de ser feito.

HOVSTAD – Sobretudo se a imprensa se ocupar do caso.

DRA. STOCKMANN – Estou certa de que meu irmão…

HOVSTAD – Queira desculpar-me, doutora, mas pretendo fazer uma grande cobertura desse assunto.

DRA. STOCKMANN – No seu jornal?

HOVSTAD – Sim. Quando tomei a direção da Voz do Povo foi com a idéia de acabar com essa camarilha de velhos aproveitadores que dominam o poder!

DRA. STOCKMANN – É verdade, mas o senhor mesmo me disse aonde isso o levou. O jornal quase faliu.

HOVSTAD – Tivemos que calar-nos e transigir, não há dúvida. Sem esses senhores seria impossível fazer a Estação Balneária. Mas hoje ela se acha em franco progresso, não dependemos mais desses ricos e poderosos cavalheiros.

DRA. STOCKMANN – Certo, não dependemos mais deles. Mas isso não quer dizer que não sejamos gratos a eles.

HOVSTAD – Vamos expressar nossa gratidão com todas as honras que lhes são devidas. Mas um jornalista com tendências democráticas, como eu, não pode deixar escapar esta grande oportunidade. É preciso acabar com a velha lenda da infalibilidade dos homens que nos dirigem. Como qualquer outra superstição, esta deve ser destruída.

DRA. STOCKMANN – Neste ponto, estou de acordo com o senhor.

HOVSTAD – Eu gostaria de poupar o prefeito, por ser ele seu irmão. Mas a senhora há de convir que a verdade deve vir antes de tudo…

DRA. STOCKMANN – Claro. No entanto…

HOVSTAD – Não quero que me julgue mal. Não sou nem mais egoísta, nem mais ambicioso do que a maioria das pessoas.

DRA. STOCKMANN – Mas, caro amigo, quem diz o contrário.

HOVSTAD – Sou de origem humilde, como a senhora sabe. Isso me permitiu compreender claramente que as camadas populares, as chamadas classes inferiores, devem participar do governo, dirigindo, elas também, os negócios públicos. Nada melhor que isso para desenvolver o sentimento de cidadania e da própria dignidade…

DRA. STOCKMANN – Evidentemente…

HOVSTAD – E parece-me que um jornalista não poderia deixar escapar uma oportunidade como essa para trabalhar pela emancipação da massa dos humildes, dos oprimidos. Sei perfeitamente que os poderosos dirão que isso é uma insurreição ou coisa que o valha. Mas, digam o que quiserem, não importa! Tenho a consciência tranquila!

DRA. STOCKMANN – Perfeito, perfeito, meu caro Sr. Hovstad… (Batem à porta) Entre! (O impressor Aslaksen surge na porta. Está vestido de preto, uma roupa modesta, mas correta. Gravata branca, um pouco amarrotada. Traz na mão um chapéu)

ASLAKSEN (Respeitosamente) – Desculpe-me, doutora, se tomo a liberdade…

DRA. STOCKMANN – Que surpresa! O impressor Aslaksen!

ASLAKSEN – Sim, doutora, sou eu.

HOVSTAD (Levantando-se) – Você quer falar comigo, Aslaksen?

ASLAKSEN – Não, eu não sabia que você estava aqui. É com a doutora mesmo que eu quero falar.

DRA. STOCKMANN – Em que posso servi-lo?

ASLAKSEN – É verdade o que me disse o Billing, que a senhora quer fazer uma reforma na canalização das nossas águas?

DRA. STOCKMANN – Sim, as da Estação Balneária.

ASLAKSEN – Compreendo. Nesse caso, diante dos fatos que a senhora apresentou, venho dizer-lhe que apoiarei com todas as minhas forças esse projeto.

HOVSTAD (À doutora) – Está vendo?

DRA. STOCKMANN – Agradeço-lhe a solidariedade, mas…

ASLAKSEN – É que, vê a senhora, não será talvez demais poder contar conosco, os legítimos representantes da classe média, dos cidadãos comuns. Unidos, formamos uma maioria compacta. E é sempre bom, doutora, ter a maioria ao nosso lado.

DRA. STOCKMANN – Sem dúvida! Só não entendo por que são necessárias tantas precauções para uma coisa tão simples.

ASLAKSEN – Oh! Sim! Pode-se precisar. Conheço bem as nossas autoridades, creia-me. Os que estão no poder não veem com bons olhos os projetos que beneficiam outras categorias sociais, os gastos que só beneficiarão as pessoas sem trazer lucro imediato a eles. Eis por que, a meu ver, deveríamos fazer uma manifestação.

HOVSTAD – É isso! É isso!

DRA. STOCKMANN – Manifestação? A que tipo de manifestação o senhor se refere?

ASLAKSEN – Sugiro uma coisa moderada. A senhora sabe que eu considero a moderação uma das principais virtudes cívicas. Pelo menos é essa a minha opinião.

DRA. STOCKMANN – A moderação é fundamental, Sr. Aslaksen, todos sabemos disso.

ASLAKSEN – Muito bem… Quanto a esse assunto da canalização das águas, é da maior importância para nós os cidadãos humildes e trabalhadores da cidade. Não dizem que a Estação Balneária vai ser uma mina de ouro para a cidade? Todos usufruiremos de seus benefícios e em particular nós os pequenos proprietários de imóveis. Por isso, estamos decididos a apoiar a Estação Balneária com todas as nossas forças. Na qualidade de presidente da Associação dos Pequenos Proprietários de Imóveis…

  1. STOCKMANN – E então?

ASLAKSEN – … E além disso, como agente da Sociedade da Moderação. A senhora sabe o trabalho que me dá a causa da moderação?

DRA. STOCKMANN – Sim, sim, sei disso.

ASLAKSEN – A senhora sabe, eu conheço muita gente na cidade. E como me consideram um cidadão honrado e respeitador das leis – a senhora mesmo o disse -, chego a ter uma certa influência. Posso mesmo dizer que tenho um certo poder…

DRA. STOCKMANN – Também sei isso, Sr. Aslaksen.

ASLAKSEN – Conto-lhe essas coisas para mostrar que seria fácil para mim organizar um manifesto, se fosse preciso.

DRA. STOCKMANN – Um manifesto, diz o senhor?

ASLAKSEN – Sim, uma espécie de carta de agradecimento, na qual os habitantes da cidade manifestariam sua gratidão por ter zelado pelos interesses públicos. Não é preciso dizer que ela seria concebida num tom suave para não ofender as autoridades. Nessas condições, não nos poderão censurar, não é verdade?

HOVSTAD – E se isso não lhes agradasse…

ASLAKSEN – Não, não, não, Sr. Hovstad. Nada de ataques à autoridade. Nada de oposição àqueles de quem dependemos. Estou farto disso, e aliás, isso nunca deu resultado positivo. Mas não há nada de ofensivo no fato de um cidadão exprimir livremente algumas ideias sensatas.

DRA. STOCKMANN (Apertando-lhe a mão) – Você não imagina, meu caro Sr. Aslaksen, o quanto me alegra encontrar tanto eco entre os meus concidadãos. Sinto-me feliz, muito feliz. Você aceita um cálice de conhaque?

ASLAKSEN – Não, muito obrigado. Eu jamais tomo esse tipo de bebida.

DRA. STOCKMANN – Um copo de cerveja, então?

ASLAKSEN – Obrigado, doutora. Não costumo tomar nada a esta hora do dia. E, agora, preciso ir à cidade conversar com os proprietários e preparar o terreno…

DRA. STOCKMANN – É muita gentileza sua, Sr. Aslaksen, mas não posso acreditar que sejam necessários tantos preparativos para uma coisa que deveria andar naturalmente, por si só.

ASLAKSEN – As autoridades se movem com uma certa lentidão. Oh! Não digo isso por censurá-las, mas…

HOVSTAD – Amanhã tudo estará no nosso jornal, Aslaksen.

ASLAKSEN – Sim, mas nada de violências, Sr. Hovstad. Aja com prudência, porque do contrário, não conseguirá nada. Acredite, adquiri experiência na escola da vida. Bem, doutora, boa tarde. Sabe agora que pode contar com um bom apoio, porque a classe média é um muro sólido. Doutora, a senhora tem ao seu lado a maioria, a opinião pública. (Estende-lhe a mão) Adeus!

ASLAKSEN – O Sr. vem comigo para a redação, Sr. Hovstad?

HOVSTAD – Daqui a pouco estarei lá. Tenho ainda o que fazer.

ASLAKSEN – Está bem, está bem. (Cumprimenta e sai. A Dra. Stockmann acompanha-o até a porta)

HOVSTAD (Para a doutora, quando ela retoma) – Então! Que me diz, doutora? Não lhe parece que é tempo de arejar isto aqui um pouco, de sacudir todo este torpor, esta covardia, esta letargia em que está mergulhada a cidade?

DRA. STOCKMANN – Está se referindo a Aslaksen?

HOVSTAD – Sim, ele é um dos que chapinham no pântano, apesar de ser muito boa pessoa. Quanto aos outros, são iguaizinhos a ele, sempre nadando entre duas águas, pequenos burgueses medíocres enleados numa rede de compromissos que os impede de dar um único passo decisivo.

DRA. STOCKMANN – Sim, mas Aslaksen pareceu-me ter boas intenções. O que acha?

HOVSTAD – Para mim, há coisas mais importantes do que ser um homem bem-intencionado: ser um homem resoluto e senhor de si mesmo.

  1. STOCKMANN – O senhor tem toda a razão.

HOVSTAD – Por isso faço questão de aproveitar esta oportunidade para ver se, finalmente, posso estimular os homens de boa vontade. Precisamos extirpar desta cidade o culto da autoridade. É preciso que o erro imperdoável cometido nesse assunto das águas seja um facho de luz para todos os eleitores.

DRA. STOCKMANN – Está bem. Se o senhor realmente acredita ser isso de interesse público, façam. Mas primeiro deixe eu falar com meu irmão.

HOVSTAD – Em todo caso escreverei um artigo e, se o prefeito se recusar a apoiar o assunto…

DRA. STOCKMANN – Ora essa! Como pode admitir…?

HOVSTAD – Tudo é possível. E nesse caso?

DRA. STOCKMANN – Nesse caso prometo-lhe… Nesse caso pode publicar o que escrevi. De ponta a ponta.

HOVSTAD – Verdade? Palavra?

DRA. STOCKMANN (Alcança o manuscrito) – Tome. Leve e leia. Depois o senhor me devolve.

HOVSTAD – Fique tranquilo. E agora, doutora, adeus.

DRA. STOCKMANN – Adeus, adeus. O senhor verá, Hovstad, que tudo correrá às mil maravilhas.

HOVSTAD – Hum… Vamos ver. (Cumprimenta e sai pela porta principal)

DRA. STOCKMANN (Aproximando-se da sala de jantar) – Catarina! Ah! Estás de volta, Petra?

PETRA (Entrando) – Sim, acabo de chegar da escola.

SRA. STOCKMANN (Entrando) – Ele ainda não veio?

DRA. STOCKMANN – Peter? Não, mas tive uma longa conversa com Hovstad. Ele está entusiasmado com a minha descoberta. Disse que ela tem maior alcance do que eu a princípio julgava. E ele colocou o jornal a minha disposição, caso precisar.

SRA. STOCKMANN – Achas que vai ser preciso?

DRA. STOCKMANN – Acho que não. Em todo caso é bom saber que tenho ao meu lado a imprensa liberal e independente. E além disso, recebi a visita do presidente da Associação dos Pequenos Proprietários de Imóveis.

SRA. STOCKMANN – O que ele queria?

DRA. STOCKMANN – Veio dar-me apoio. Todos querem apoiar-me, caso eu precise. Sabes, Catarina, o que eu tenho por trás de mim?

SRA. STOCKMANN – Por trás de ti? Francamente, não, não sei.

DRA. STOCKMANN – Tenho por trás de mim a maioria dos cidadãos, a opinião pública!

SRA. STOCKMANN – Ah! Sim? E isso te serve para alguma coisa, Thamy?

DRA. STOCKMANN – Se serve! (Caminha de um lado para outro, esfregando as mãos) Ah! Meu Deus! Como é bom sentir-se em comunhão com os seus concidadãos!

PETRA – E poder fazer o bem, mãe!

DRA. STOCKMANN – Sim, minha filha, e sobretudo quando se trata da minha cidade, da cidade onde nasci.

SRA. STOCKMANN – Tocaram a campainha.

DRA. STOCKMANN – Deve ser ele… (Batem à porta) Entre.

PREFEITO – Bom dia.

DRA. STOCKMANN – Bom dia, Peter, seja bem-vindo.

SRA. STOCKMANN – Bom dia, cunhado. Como vai?

PREFEITO – Obrigado, assim, assim. (À doutora) Encontrei ontem ao chegar em casa, quando vim do escritório, um relatório que você me mandou, referente às águas do Balneário.

DRA. STOCKMANN – Leu?

PREFEITO – Li.

DRA. STOCKMANN – E então? O que você diz?

PREFEITO (Olhando em torno) – Hum…

SRA. STOCKMANN – Vem Petra. (Entra com Petra no quarto à esquerda)

PREFEITO (Depois de uma pausa) – Era preciso fazer todas essas investigações nas minhas costas?

DRA. STOCKMANN – Eu precisava ter a certeza absoluta de que…

PREFEITO – E você tem, agora?

DRA. STOCKMANN – Evidentemente! Você mesmo leu meu relatório.

PREFEITO – Você tem a intenção de mandar esse relatório para a direção da Estação Balneária em caráter oficial?

DRA. STOCKMANN – Claro! É preciso fazer alguma coisa, e depressa.

PREFEITO – Como sempre, você utiliza no seu relatório palavras violentas e exageradas. Entre outras coisas, você diz que estamos envenenando os nossos hóspedes…

DRA. STOCKMANN – Mas é a pura verdade, Peter! Pense um pouco – água envenenada! E, portanto, imprópria para beber e imprópria para o banho! É isso que estamos oferecendo a pobres doentes e veranistas que vêm aqui! Essas pessoas que confiam em nós e nos pagam um bom dinheiro para recuperar a saúde!

PREFEITO – E finalmente você chega à brilhante conclusão de que devemos construir um esgoto para as supostas imundices do Vale dos Moinhos e reinstalar de outro lado todo o sistema de canalização das águas.

DRA. STOCKMANN – Você conhece outro meio? Eu não.

PREFEITO – Hoje pela manhã fiz uma visita ao engenheiro municipal e, como quem não quer nada, falei da hipótese de, no futuro, fazermos algumas reformas nas canalizações…

DRA. STOCKMANN – No futuro?

PREFEITO – Ele riu, naturalmente, das minhas palavras. Você já imaginou o que poderiam custar essas mudanças? Feito o orçamento, as despesas se elevariam, mais ou menos, a algumas centenas de milhares de coroas.

DRA. STOCKMANN – Tão caro assim?

PREFEITO – E o pior é que o trabalho levaria, pelo menos, dois anos.

DRA. STOCKMANN – Dois anos? Tanto tempo?

PREFEITO – No mínimo. E o que viria a ser da Estação Balneária e da cidade durante esse tempo? Sim, porque seríamos obrigados a fechar o Balneário. Você pensa que alguém viria até aqui sabendo que nossas águas estão contaminadas?

DRA. STOCKMANN – Mas elas estão, Peter!

PREFEITO – E tudo isso justamente no momento em que a nossa Estação Balneária começa a ficar conhecida em todo o país! Já passou pela sua cabeça que as localidades vizinhas também podem fazer as suas estações balneárias? Não acha que, tão logo se divulgue essas barbaridades, elas usarão de todos os recursos para atrair os nossos veranistas? Não tenha dúvidas! Nada mais nos restaria fazer senão fechar este estabelecimento que nos custou tão caro. E desse modo você terá arruinado a sua cidade natal.

DRA. STOCKMANN – Eu… Eu terei arruinado…

PREFEITO – O futuro desta cidade é a Estação Balneária. Você sabe disso tão bem quanto eu.

DRA. STOCKMANN – Mas o que você acha que devemos fazer?

PREFEITO – O seu relatório não me convenceu de que as condições do balneário estejam tão precárias quanto você diz.

DRA. STOCKMANN – São muito ruins! E quando chegar o verão, com o calor, serão piores ainda!

PREFEITO – Mais uma vez, creio que você exagera. Uma boa médica deve saber tomar as providências necessárias e combater os possíveis problemas…

DRA. STOCKMANN – Como?!

PREFEITO – O sistema atual das canalizações do balneário é um fato consumado e deve, portanto, ser aceito como tal. Isso não quer dizer que a direção se recuse a examinar as suas ponderações no seu devido tempo, visando aperfeiçoar o sistema. Desde que isto não impacarrete gastos acima de suas forças.

DRA. STOCKMANN – E você julga que eu me associaria a uma farsa dessa natureza?

PREFEITO – Uma farsa?

DRA. STOCKMANN – Sim, isso seria uma farsa, uma fraude, uma mentira, um verdadeiro crime contra o povo, contra a sociedade!

PREFEITO – Como acabo de dizer, não me convenci de que o perigo seja assim tão grave.

DRA. STOCKMANN – Sim, Peter; não tenho a menor dúvida de que você está convencido! Meu relatório é claro e concludente; sei muito bem o que estou afirmando. E você, por sua vez, entende muito bem, Peter. Sei que você sabe que é verdade! Mas não quer aceitar. Já que, graças a você, os prédios e canalizações estão onde estão. Você não quer reconhecer que errou, eu já entendi tudo.

PREFEITO – E se fosse isso? Se eu me preocupo com a minha reputação e com o interesse da comunidade? Sem autoridade moral, eu não poderia dirigir os negócios públicos da forma que me parece mais proveitosa para a comunidade. É por isso, entre outros motivos, que eu não quero que o seu relatório seja apresentado à direção. É o interesse público que está em jogo! Mais tarde, eu colocarei essa questão na ordem do dia e faremos o que pudermos. Mas em silêncio! Nada, absolutamente nada dessa desgraçada questão deve ser divulgado!

DRA. STOCKMANN – Isso, meu caro Peter, não é mais possível.

PREFEITO – É preciso impedi-la, a qualquer preço.

DRA. STOCKMANN – Agora é tarde. Muita gente já sabe.

PREFEITO – Quem? Espero que pelo menos não seja essa gente da Voz do Povo.

DRA. STOCKMANN – Eles, inclusive. A imprensa liberal e independente tudo fará para pressioná-los a cumprir o seu dever.

PREFEITO (Depois de uma pausa) – Realmente, Thamy, você é uma imprudente. Não lhe ocorreu que tudo isso pode trazer graves consequências para você?

DRA. STOCKMANN – Para mim?

PREFEITO – Sim, para você e sua família!

DRA. STOCKMANN – Que você quer dizer com isso?

PREFEITO – Sempre agi como um bom irmão, não é?

DRA. STOCKMANN – E eu sou muito grata por isso.

PREFEITO – Não quero agradecimentos. Até certo ponto agi no meu próprio interesse. Sempre acreditei que melhorando sua situação econômica teria alguma influência sobre você.

DRA. STOCKMANN – Como? Como? Então foi somente por interesse pessoal…

PREFEITO – Até certo ponto, sim. É lamentável para um funcionário de Estado que uma pessoa que lhe é tão chegada esteja sempre se comprometendo.

DRA. STOCKMANN – E você pensa que eu me comprometo?

PREFEITO – Sim, desgraçadamente! E você nem percebe isso! Você tem um gênio irrequieto, rebelde, eu diria, até, subversivo. Além disso, você tem a obsessão de escrever sobre tudo!… Qualquer coisa que passa pela sua cabeça você transforma em artigo de jornal, ou até mesmo em panfleto, se for o caso!

DRA. STOCKMANN – Não é dever de todo bom cidadão, logo que lhe vem ideias novas, comunicá-las ao povo?

PREFEITO – Ora! O povo não precisa de ideias novas. O povo precisa é das boas e velhas ideias!

DRA. STOCKMANN – E você diz isso sem nenhum constrangimento?

PREFEITO – Sim, Thamy! Finalmente chegou o momento de falar-lhe com toda a franqueza. Como eu conheço o seu caráter irascível, nunca me atrevi a ser franco e direto com você. Mas agora devo lhe dizer a verdade, toda a verdade! Você não calcula o mal que causa a si mesmo com seu gênio impetuoso. Você está sempre se queixando  das autoridades, do governo, chegando mesmo a insultar a todos. Você só sabe se lamentar, dizer que foi posta à margem, perseguida… O que você esperava, afinal, depois de tudo o que tem feito?

DRA. STOCKMANN – Bom, quer dizer que tenho um gênio impetuoso…

PREFEITO – Sim, Thamy, você é uma mulher difícil de se aguentar. Já comprovei isso. Não tem consideração por coisa alguma. Parece esquecer que é a mim que você deve o posto de médica do Balneário.

DRA. STOCKMANN – Você sabe que eu era a mulher certa para este posto! Mesmo porque, eu nem tinha concorrente! Fui a primeira a ver que nossa cidade podia tornar-se uma bela estação balneária. E no começo, só eu acreditava nisso! Lutei por esta idéia durante anos. Escrevi artigos e mais artigos…

PREFEITO – Eu não nego isso. Não havia, porém, chegado o momento. Você não podia, a milhares de quilômetros de distância, onde você morava, saber se era oportuno ou não. Quando chegou o momento certo, pusemos mãos à obra, eu… e os outros.

DRA. STOCKMANN – Sim, e estragaram meu belo projeto. Bem se vê que homens competentes são vocês!

PREFEITO – Pelo que vejo você está novamente querendo descarregar a sua agressividade. Rebelar-se contra os seus superiores. É costume antigo seu. Você não pode suportar nenhuma autoridade superior. Você olha com aversão todos os que estão acima. E logo você o encara como um inimigo pessoal – e passa a atacá-lo com todas as armas possíveis. Mas, agora, você está a par dos interesses que estão em jogo. São interesses da cidade, e, por consequência, um assunto pessoal para mim. Por isso a previno, minha cara Thamy, de que serei inflexível no que exijo de você.

DRA. STOCKMANN – E o que você quer de mim?

PREFEITO – Como é que você sai espalhando por aí algo tão grave e que só interessa à direção da Estação Balneária? Você é uma irresponsável, e a esta altura do jogo já não se pode mais abafar isso.
Vão circular todos os tipos de boatos. Só nos resta uma coisa! É indispensável que você faça um desmentido público!

DRA. STOCKMANN – Desmentido? Não estou entendo.

PREFEITO – Você pode dizer que, depois de conhecer o resultado de novas análises, chegou à conclusão de que o caso não é tão grave como havia julgado.

DRA. STOCKMANN – É isso que você espera de mim?

PREFEITO – Esperamos também que declare publicamente sua confiança na direção da Estação Balneária e que você tem a convicção de que farão tudo o que for preciso para que desapareçam todos os vestígios de contaminação das águas.

DRA. STOCKMANN – Mas para fazer isso são necessárias ações objetivas e claras. E eu não vejo vontade política de meter a mão profundamente nessa podridão. Pelo menos é o que concluo pelo que você me disse.

PREFEITO – Como empregada da Estação Balneária, você não tem direito a uma opinião individual e solitária.

DRA. STOCKMANN – Não tenho o direito de…?

PREFEITO – Como empregada, disse eu. Como cidadã, você pode pensar o que quiser. Como funcionária da Estação Balneária, você não tem o direito de externar uma opinião que não esteja de acordo com a dos seus superiores.

DRA. STOCKMANN – Mas isso já é demais! Eu, médica, mulher de ciência, não tenho o direito de…!

PREFEITO – Não se trata aqui de uma questão puramente científica, mas de uma questão ao mesmo tempo técnica e econômica.

DRA. STOCKMANN – Chame do jeito que você quiser. Pouco me importa! Mas quero lhe dizer que me considero absolutamente livre para ter qualquer opinião sobre todas as questões do mundo!

PREFEITO – Como você quiser. Mas não no que diz respeito ao nosso Balneário. Isso, nós lhe proibimos.

DRA. STOCKMANN (Aos berros) – Vocês me proíbem…! Vocês! Um bando de…

PREFEITO – Eu sou seu chefe e lhe proíbo. E quando proíbo uma coisa, você nada mais tem a fazer do que obedecer.

DRA. STOCKMANN (Contida) – Escuta, Peter… Se você não fosse meu irmão…

PETRA (Abrindo a porta abruptamente) – Mãe, você não deve tolerar isso.

SRA. STOCKMANN (Atrás dela) – Petra, Petra!

PREFEITO – Parece que estavam escutando atrás da porta.

SRA. STOCKMANN – Vocês falavam tão alto que não se podia evitar de…

PETRA – Sim, eu estava escutando.

PREFEITO – Bom. É melhor assim…

DRA. STOCKMANN (Aproximando-se do prefeito) – Você me falou de proibir e obedecer.

PREFEITO – Você me obrigou usar este tom.

DRA. STOCKMANN – E exige que eu me desminta publicamente.

PREFEITO – Nós achamos indispensável que você faça o que pedi.

DRA. STOCKMANN – E se eu me recusar a obedecer?

PREFEITO – Nesse caso, nós mesmos publicaremos uma declaração com o objetivo de tranquilizar o público.

DRA. STOCKMANN – Está muito bem. Mas eu, então, escreverei contra vocês. Sustentarei o que disse. Provarei que tenho razão e que vocês estão errados. O que vocês vão fazer?

PREFEITO – Aí, então, não poderei evitar que você seja demitida.

DRA. STOCKMANN – O quê?…

PETRA – A mãe… Demitida?

SRA. STOCKMANN – Demitida!

PREFEITO – Sim, demitida do posto de médica da Estação Balneária e afastada de toda participação nos negócios do Balneário.

DRA. STOCKMANN – Vocês fariam isso?

PREFEITO – Você está se metendo num jogo perigoso.

PETRA – Meu tio, isso é uma forma revoltante de tratar uma mulher como minha mãe!

SRA. STOCKMANN – Petra, cala a boca!

PREFEITO (Olhando Petra) – Olha só! A filha já começa também a ter opiniões subversivas. Claro! Não podia deixar de ser assim. (Para a Sra. Stockmann) Cunhada, você, que parece ser a pessoa mais sensata da casa, devia usar de sua influência sobre sua mulher e faze-la compreender as consequências que tudo isso pode trazer a ela e à sua família.

DRA. STOCKMANN – Ninguém tem nada a ver com a minha família.

PREFEITO – …à sua família, repito, e também à sua cidade.

DRA. STOCKMANN – Quem se preocupa com o bem-estar da cidade sou eu! Vou denunciar todos os erros que vocês cometeram e que cedo ou tarde todo mundo vai saber! E aí veremos quem realmente ama esta cidade!

PREFEITO – Você ama a cidade? A mulher que quer destruir sua principal fonte de riqueza?

DRA. STOCKMANN – Mas, Peter, essas fontes estão envenenadas! Nós vivemos de um comércio de imundíces e de veneno! Esta riqueza tão promissora está baseada numa mentira!

PREFEITO – Tudo isso são loucuras. A mulher que emite tão odiosas insinuações contra a sua própria cidade não pode ser senão uma inimiga da comunidade.

DRA. STOCKMANN (Indo na direção do prefeito) – Você se atreve!

SRA. STOCKMANN (Colocando-se entre os dois) – Thamy!

PETRA (Segurando a mãe) – Calma, mãe!

PREFEITO – Não vou me expor à ira de uma mulher descontrolada e violenta. Você está avisada. Pense em você e na sua família. Adeus. (Sai)

DRA. STOCKMANN (Caminhando de um lado para outro) – Tenho de tolerar essas ofensas na minha própria casa! O que você diz, Catarina?

SRA. STOCKMANN – É um absurdo, Thamy, uma vergonha!

PETRA – Ah! Eu só queria botar as mãos nesse sujeito!

DRA. STOCKMANN – Tudo isso é por culpa minha. Eu deveria ter reagido aos desmandos dessa gente há muito tempo. E ele tem a petulância de me chamar de inimiga na nossa comunidade, logo eu! Não, não! Isso não vai ficar assim!

SRA. STOCKMANN – Mas, minha querida Thamy, teu irmão tem poder na cidade, você nada pode fazer.

DRA. STOCKMANN – Sim, mas tenho a verdade ao meu lado.

SRA. STOCKMANN – Oh! A verdade… De que serve ela se você não tem o poder?

PETRA – Mãe! Como você pode falar assim?

DRA. STOCKMANN – Quer dizer que, num estado livre, não adianta nada ter a verdade ao seu lado? E além disso, estão comigo a imprensa liberal e a maioria dos cidadãos. Isso sim é que é poder, ou então não entendo mais nada.

SRA. STOCKMANN – Meu Deus, Thamy, você não está pensando…

DRA. STOCKMANN – … Em quê?

SRA. STOCKMANN – … Em abrir uma guerra contra teu próprio irmão?

DRA. STOCKMANN – E o que você quer que eu faça? Só me resta combater pela justiça e pela verdade!

PETRA – Isso mesmo, mamãe, o que você quer que ela faça?

SRA. STOCKMANN – Mas isso não adianta nada. Se eles não querem fazer as reformas que você recomendou, você não pode obrigá-los.

DRA. STOCKMANN – Você verá, Catarina, espere e verá como consigo.

SRA. STOCKMANN – Isso tudo só servirá para que você seja demitida.

DRA. STOCKMANN – Pois bem. Pelo menos terei cumprido meu dever para com a população, para com a sociedade, eu, a quem chamam de “inimiga do povo”!

SRA. STOCKMANN – E sua família, Thamy? E nós? É seu dever também ir contra os seus?

PETRA – Oh, mãe! Não pense somente em nós.

SRA. STOCKMANN – Para você é fácil falar, Petra. Você é jovem, em último caso você pode se manter. Mas e as crianças, Thamy, e nós?

DRA. STOCKMANN – Ora essa! Você perdeu a razão, Catarina? Admitindo que eu fosse bastante covarde para cair de joelhos aos pés de Peter e de sua corja, você acha que depois disso eu poderia ter um momento de felicidade, durante a minha vida?

SRA. STOCKMANN – Não sei. Mas que Deus nos livre da infelicidade que nos espera se você continuar a desafiá-los. Ficaremos outra vez sem dinheiro, sem futuro. De minha parte, confesso que acho que já passamos privações demais nesta vida. Lembre-se disso, Thamy. Lembre-se do que isso representa.

DRA. STOCKMANN (Cerrando os punhos) – E eis a situação a que esses burocratas podem reduzir uma cidadã do bem! Não é horrível, Catarina?

SRA. STOCKMANN – Sim, eles estão se portando muito mal contigo, é verdade. Mas, santo Deus! Há tanta injustiça neste mundo! É preciso ceder, Thamy. Lembre-se dos meninos. Que será deles? Não, não, você não seria capaz… (Eilif e Morten entram com livros embaixo do braço)

DRA. STOCKMANN – Os meninos! (Recupera a energia) Não, ainda que o mundo desabasse, eu não me curvaria a esses canalhas! (Vai para o quarto)

SRA. STOCKMANN (Seguindo-a) – Thamy! O que você vai fazer?

DRA. STOCKMANN (Na porta) – Quero ter o direito de olhar meus filhos de frente e de cabeça erguida, quando eles forem homens. (Entra no quarto).

SRA. STOCKMANN (Começa a chorar) – Ah! Que Deus nos proteja!

PETRA – Mamãe é uma mulher! Ela não vai se entregar. (Os meninos, espantados, perguntam o que está acontecendo. Petra faz-lhes um sinal para que se calem)

PANO

Tradução: Mirna Wabi-Sabi
Revisão: A Inimiga da Rainha e Lookas Souza




Fonte: Ainimiga.noblogs.org