Maio 20, 2021
Do A Inimiga Da Rainha
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Por Henrik Ibsen, 1882

[No original, o protagonista é um homem — Dr. Stockmann]

Leia os outros atos AQUI.

Ilustrado por Thais Nihi

(Gabinete da Dra. Stockmann. Estantes cheias de livros e aparelhos cirúrgicos. No fundo, uma porta dá para o vestíbulo. No primeiro plano, à esquerda, a porta da sala. À direita, duas janelas cujas vidraças estão com todos os vidros quebrados. No meio da peça, a mesa da doutora, cheia de livros e de papéis. O lugar está em desordem. Manhã. A Dra. Stockmann, em robe de chambre e de chinelos, está curvada e com um guarda-chuva remexe embaixo de um dos armários. Acha uma pedra)

DRA. STOCKMANN (Falando da sala) – Olha, Catarina, achei outra.

SRA. STOCKMANN – Pois vai encontrar muitas mais.

DRA. STOCKMANN (Coloca a pedra junto com várias outras sobre a mesa) – Guardarei estas pedras como se guarda um tesouro. Eilif e Morten poderão olhá-las todos os dias e mais tarde vou deixar como herança. (Procura embaixo das estantes) Será… Como é mesmo o nome da nossa empregada? Será que ainda não foi chamar o vidraceiro?

SRA. STOCKMANN – Randine é o seu nome. Ela falou com o vidraceiro, mas ele disse que não podia vir hoje…

DRA. STOCKMANN – Obviamente, ele não terá coragem.

SRA. STOCKMANN – Foi justamente o que Randine pensou: ele não se atreverá, por causa dos vizinhos. (Falando para o lado) Que foi, Randine? Sim, sim. (Vai à sala e volta em seguida) Chegou uma carta para ti, Thamy.

DRA. STOCKMANN – Deixa ver. (Abre a carta e lê) Ah! Muito bem…

SRA. STOCKMANN – De quem é?

DRA. STOCKMANN – Do proprietário. Ele está denunciando o contrato.

SRA. STOCKMANN – Será possível? Ele sempre foi tão educado!…

DRA. STOCKMANN (Olhando a carta) – Ele não pode agir de outra forma, está dizendo aqui na carta. Lamenta muito, etc., etc. tem medo de represálias, não se atreve a enfrentar certos homens influentes…

SRA. STOCKMANN – Está vendo, Thamy?

DRA. STOCKMANN – São todos uns covardes. (Atira a carta de cima da mesa) Mas isso pouco importa, Catarina. De qualquer forma partiremos em breve para o Novo Mundo, e além disso…

SRA. STOCKMANN – Mas, Thamy, você acha que devemos ir embora assim?

DRA. STOCKMANN – Como você quer que eu fique aqui depois de ter sido posto no pelourinho, de ter sido difamada como a inimiga do povo? Ficar aqui depois de ter a minha casa apedrejada? Olhe só, Catarina: olhe o rasgão enorme que fizeram nas minhas calças pretas.

SRA. STOCKMANN – Mas isso é demais! Suas melhores calças!

DRA. STOCKMANN – Nunca se deve pôr as melhores roupas quando se vai combater pela liberdade e pela verdade. Mas confesso que pouco me importam as minhas calças: você poderá remendá-las. O que não consigo engolir é esta gentalha me ofendendo, me tratando como a uma igual.

SRA. STOCKMANN – É verdade, Thamy, essa gente da cidade foi muito grosseira com você. Mas isso não é motivo para irmos embora.

DRA. STOCKMANN – Na verdade, acho que nas outras cidades as pessoas devem ser tão violentas e intolerantes quanto as da nossa cidade. Em toda parte, é a mesma coisa. Mas, afinal, pouco se me dá. Deixemos ladrar os vira-latas. Isso não é o pior: o pior é que, de uma extremidade à outra do país, todos estão atrelados às vontades dos partidos políticos. Na América, é possível que as coisas não sejam melhores. Por lá também existe a chamada opinião pública, a maioria silenciosa. Mas tudo isso se dá em vastas proporções, há a diversidade de opiniões. Matam de uma vez só, e não vagarosamente, sob tortura, como fazem aqui. Pelo menos lá o indivíduo tem o direito a optar pela solidão. (Caminhando para o fundo da sala) Ah! se pelo menos eu soubesse de alguma floresta virgem ou de alguma ilha dos mares do Sul que pudesse comprar a preço razoável!

SRA. STOCKMANN – Sim, mas… E os nossos meninos, Thamy?

DRA. STOCKMANN – Catarina, às vezes eu não consigo entender você! Prefere que nossos filhos cresçam numa sociedade como a nossa? Ontem mesmo você pôde constatar que a metade da população desta cidade enlouqueceu. E se a outra metade não perdeu a razão, é porque são animais que não têm nada a perder.

SRA. STOCKMANN – Está certo, minha querida Thamy, mas convenhamos que você disse coisas muito fortes…

DRA. STOCKMANN – O está dizendo! Por acaso não é verdade o que eu disse? Eles conseguem distorcer tudo! Misturam justiça e injustiça. Não dizem que é mentira o que eu sei ser uma terrível verdade? E pior! Há loucura maior do que ver esses homens que se consideram respeitáveis, autointitulados liberais, manipulando a opinião das pessoas em benefício próprio? E ao final, Catarina, é como se houvesse um partido único; certo ou errado, todo mundo pensa igual!

SRA. STOCKMANN – Sim, sim, não há dúvida, tudo isso é uma loucura, mas… (Entra Petra)

SRA. STOCKMANN – Como? Já voltou da escola?

PETRA – Sim, fui demitida.

SRA. STOCKMANN – Demitida!

DRA. STOCKMANN – Você também!

PETRA – A Sra. Busk começou a fazer insinuações e eu, então, preferi sair imediatamente.

SRA. STOCKMANN – Nunca pensei que a Sra. Busk fosse uma mulher tão ruim!

PETRA – A Sra. Busk no fundo, não é má pessoa. Dava para perceber que ela estava sofrendo com a situação. Ela estava sendo terrivelmente pressionada, segundo me disse. Aí, então, fui demitida.

DRA. STOCKMANN (Rindo amargamente) – É fantástico! Ninguém se atreve a desafiá-los!

SRA. STOCKMANN – Depois de todo o tumulto de ontem à noite…

PETRA – E tem mais, mamãe.

DRA. STOCKMANN – O quê?

PETRA – A Sra. Busk me mostrou três cartas que recebeu esta manhã.

STOCKMANN – Anônimas, naturalmente?

PETRA – Óbvio.

DRA. STOCKMANN – Viu só, Catarina? Eles não se atrevem a assinar as cartas.

PETRA – E em duas delas diziam que uma pessoa que frequenta nossa casa teria dito no clube que eu tenho opiniões independentes demais sobre certos assuntos.

DRA. STOCKMANN – Espero que não tenhas negado!

PETRA – Claro que não. A própria Sra. Busk tem também lá as suas próprias ideias, mas somente quando estamos a sós… E depois dessas fofocas ela não teve coragem de me manter na escola.

SRA. STOCKMANN – Vejam só! Uma pessoa que frequenta nossa casa! Está vendo, Thamy, é assim que agradecem a sua hospitalidade.

DRA. STOCKMANN – Chega de viver no meio de toda essa sujeira! Arruma as malas o mais depressa que puder, Catarina, e vamos embora: quanto antes, melhor.

SRA. STOCKMANN – Psiu! Acho que ouvi passos na varanda. Vai ver quem é, Petra?

PETRA (Abrindo a porta) – Ah! É o senhor Horster! Queira entrar.

CAPITÃO HORSTER – Bom dia. Queria saber como vocês estão indo no meio desta tempestade.

DRA. STOCKMANN (Cumprimentando o capitão) – Obrigada capitão, é muito amável de sua parte vir nos visitar.

SRA. STOCKMANN – Agradecemos, também, de todo o coração, a ajuda que nos deu ontem, enfrentando aquela massa furiosa.

PETRA – Como o senhor voltou para casa, capitão?

HORSTER – Não foi tão difícil assim! Como bom marinheiro, eu sou bom de briga, e essa gente só sabe gritar.

DRA. STOCKMANN – É muito curiosa essa gente. Covardes que se escondem sob o manto da multidão. Mas mesmo na sua covardia eles são peculiares. Venha cá, vou lhe mostrar uma coisa. Guardei as pedras que atiraram em nossas janelas e caíram aqui dentro de casa. Veja só, duas ou três pedras realmente perigosas. O resto são pedrinhas inofensivas. Mas, no entanto, eles berravam furiosamente dizendo que iam me estraçalhar. Com estas pedrinhas? São cautelosos até para destruir…

HORSTER – Neste caso, muito melhor para a senhora, doutora.

DRA. STOCKMANN – Lá isso é verdade. Mas imagine, capitão, se um dia houver uma batalha decisiva para defender o país, o senhor verá que a famosa “maioria” correrá em debandada como um rebanho de ovelhas. Isso é que me deprime. O resto, pouco me importa! Sou uma inimiga do povo, segundo eles dizem. Pois que assim seja – inimiga do povo.

SRA. STOCKMANN – Ora, Thamy, você jamais será uma inimiga do povo.

DRA. STOCKMANN – Nunca pensei que acabaria perseguida e escorraçada pelas mesmas pessoas a quem eu quis fazer o bem. Esta é uma enorme mágoa que eu guardarei. Como um espinho cravado no meu coração.

PETRA – Ora, mamãe! Você deve rir de tudo isso.

HORSTER – Essa gente, doutora, mais dia, menos dia, vai mudar de ideia.

SRA. STOCKMANN – Sim, Thamy, pode ter certeza disso.

DRA. STOCKMANN – É possível que aconteça isso. Mas aí, pode ser tarde… Aí eles vão se dar conta. (Pensativa) Condenaram um patriota ao exílio… Quando pensa partir, capitão?

HORSTER – É sobre isso que eu queria falar com a senhora.

DRA. STOCKMANN – O que houve? Aconteceu alguma coisa com o navio?

HORSTER – Não, Doutora. É que eu… Não partirei.

PETRA – Não diga que foi demitido?

HORSTER (Sorrindo, tristemente) – Pois é isso mesmo, fui demitido.

PETRA – O senhor também!

SRA. STOCKMANN – Está vendo, Thamy?

DRA. STOCKMANN – Tudo isso devido a sua lealdade, capitão! Ah! Se eu soubesse que tudo isso ia acontecer…

HORSTER – Não se preocupe, Doutora. Vai ser fácil para mim arranjar emprego em outra cidade.

DRA. STOCKMANN – Mas logo esse sr. Vik. Um homem rico, que não depende de ninguém… (Faz um gesto de nojo)

HORSTER – No fundo é um bom homem. Disse-me que gostaria de me manter, mas eu não quis desafiar…

DRA. STOCKMANN – É como todos, capitão. Era de esperar!

HORSTER – Disse que, quando se pertence a um partido político, não se pode atrever a tomar atitudes independentes.

DRA. STOCKMANN (Com ironia) – Ah! Quanto a isso, esse “bom homem” tem razão! Um partido? O senhor sabe o que é um partido, capitão? Partido é como uma máquina de moer carne… Carne humana!

SRA. STOCKMANN – Ora, Thamy!

PETRA (A Horster) – Se o senhor não tivesse nos apoiado, talvez as coisas não tivessem chegado a esse ponto.

HORSTER – Não me arrependo do que fiz.

PETRA (Estendendo-lhe a mão) – Obrigada.

HORSTER (À doutora) – Doutora, eu queria também dizer-lhe que, se a senhora quer partir, apesar de tudo, pensei num outro meio…

DRA. STOCKMANN – Desde que a gente vá embora daqui qualquer meio é bem-vindo…

SRA. STOCKMANN – Ouçam! Estão batendo à porta.

PETRA – Deve ser o tio Peter.

DRA. STOCKMANN – Ah! Ah! (Gritando) Entre.

SRA. STOCKMANN – Por favor, minha querida Thamy, prometa-me…

(Entra o Prefeito)

PREFEITO (Na porta) – Ah! Tens visita? Voltarei depois…

STOCKMANN – Não, não, entra.

PREFEITO – Mas é uma conversa particular.

SRA. STOCKMANN – Não se preocupem, nós vamos para outra sala…

HORSTER – E eu voltarei mais tarde.

DRA. STOCKMANN – Não, capitão, por favor, aguarde lá na sala de jantar. Preciso falar com o senhor.

HORSTER – Está bem. Vou esperar. (Saem a Sra. Stockmann, o Capitão e Petra. O prefeito disfarçadamente olha as vidraças quebradas)

DRA. STOCKMANN (Apontando para as vidraças quebradas) – Se o vento encanado lhe incomoda, você pode pôr o boné, Peter.

PREFEITO – Com sua licença. (Põe o boné) Acho que peguei um resfriado ontem à noite, naquele frio.

DRA. STOCKMANN – Frio? Curioso, eu achei que estava muito quente naquela sala.

PREFEITO – Queria dizer que lamento muito não ter podido evitar os acontecimentos de ontem.

DRA. STOCKMANN – Era isso que queria me dizer tão confidencialmente?

PREFEITO (Tirando do bolso um documento) Tenho aqui uma carta da direção da Estação Balneária.

DRA. STOCKMANN – Estou demitida?

PREFEITO – Sim, a partir de hoje. (Coloca o papel em cima da mesa). Lamentamos muito, mas, francamente, não se pode fazer outra coisa diante do ambiente que se criou frente à opinião pública.

DRA. STOCKMANN – Engraçado, Peter, não é a primeira vez que ouço essa frase, hoje.

PREFEITO – Thamy, por favor, pense bem na sua situação! A partir de hoje não terá um cliente sequer nesta cidade!

DRA. STOCKMANN – Danem-se os clientes! Mas como pode ter certeza disso?

PREFEITO – A Associação dos Pequenos Proprietários está fazendo circular um abaixo-assinado. Todos os cidadãos devem comprometer-se a não chamar você em hipótese alguma. E posso lhe assegurar que nem um chefe de família arriscar-se-á a negar a sua assinatura. Não se atrevem, simplesmente.

DRA. STOCKMANN – Quanto a isso, não tenho dúvidas. E o que mais?

PREFEITO – Acho que você deve sair da cidade por uns tempos.

DRA. STOCKMANN – Estou pensando seriamente em ir embora.

PREFEITO – Ótimo. E, se mais tarde, depois de uns seis meses de reflexão, tendo pensado tudo muito bem, você escrever um artigo no jornal reconhecendo que estava errada?

DRA. STOCKMANN – Você acredita que eles me reintegrariam ao posto?

PREFEITO – Talvez. Não é impossível.

DRA. STOCKMANN – Mas e a opinião pública? Vocês poderiam se atrever a afrontá-la?

PREFEITO – A opinião pública, minha cara Thamy, é uma coisa muito relativa, varia muito, compreende? E, além disso, para falar com franqueza, o que importa é o seu desmentido.

DRA. STOCKMANN – Acredito. Para vocês, seria maravilhoso. Mas você sabe muito bem o que penso dessas mentiras.

PREFEITO – No início, você estava em outra situação, achava que a cidade estava com você…

DRA. STOCKMANN – E agora todos estão contra mim! Fique sabendo, Peter, que nunca farei isso. Jamais!!!

PREFEITO – Uma mãe de família não pode arriscar-se desta forma, Thamy.

DRA. STOCKMANN – Não posso arriscar-me? Só há no mundo uma coisa que uma pessoa livre não deve se atrever a fazer. Sabe o que é?

PREFEITO – Não.

DRA. STOCKMANN – Pois bem! Saiba que uma cidadã de bem não deve encobrir imundíces. Ela deve ter a consciência tranquila, para amanhã não se envergonhar de si mesma!

PREFEITO – O que diz é perfeitamente justo. Se não houvesse razão para a obstinação com que defendes uma causa injusta… Mas é que, justamente, há uma…

DRA. STOCKMANN – Que quer dizer?

PREFEITO – Você compreende bem. Estou lhe dando um conselho de irmão e de um homem razoável: não se agarre a esperanças inúteis que, provavelmente, nunca irão se realizar.

DRA. STOCKMANN – O que você quer dizer com isso?

PREFEITO – Vai me dizer que não conhece o testamento do velho Morten Kiil?

DRA. STOCKMANN – Sei que o pouco que ele tem está destinado a uma fundação para velhos operários necessitados. Mas que tenho eu com isso?

PREFEITO – O pouco que tem? Ora, Thamy, o velho Morten Kiil é um homem rico, muito rico…

DRA. STOCKMANN – Não tenho a menor ideia… E não me importa.

PREFEITO – E não tem ideia de que uma grande parte da sua fortuna será destinada aos seus filhos? E que você e sua mulher teriam todo esse dinheiro em usufruto? O velho nunca lhe disse isso?

DRA. STOCKMANN – Não! Ao contrário. Ele está sempre se queixando, fingindo-se de pobre! Reclamando dos impostos! Tens certeza do que estás dizendo, Peter?

PREFEITO – Podes crer que tenho informações seguríssimas!

DRA. STOCKMANN – Santo Deus! Neste caso está assegurado o sustento de Catarina, e a das crianças também! Vou chamá-los para dar esta boa notícia. (Gritando) Catarina, Catarina!

PREFEITO (Segurando-a) – Calada! Nem uma palavra por enquanto!

SRA. STOCKMANN (Aparecendo na porta) – Você chamou?

DRA. STOCKMANN – Não é nada. Depois falamos. (A Sra. Stockmann fecha a porta novamente)

DRA. STOCKMANN (Caminhando nervosamente de um lado para outro) Os meus filhos e Catarina com o futuro assegurado! Livres das necessidades, apesar de tudo. Como esta notícia me deixa feliz!

PREFEITO – Calma, Thamy. Ainda não está seguro! Kiil pode muito bem anular o testamento…

DRA. STOCKMANN – Não, Peter, ele não fará isso. O Leitão esteve aqui e eu percebi que ele estava muito contente vendo que eu enfrentava a você e seus amigos.

PREFEITO (Com preocupação) – Ah! Então eu começo a entender algumas coisas…

DRA. STOCKMANN – Que coisas?

PREFEITO – Nada, nada… Então vocês tinham preparado isso há muito tempo! Todos os ataques que você desferiu contra as autoridades, em nome da verdade, faziam parte de um plano.

DRA. STOCKMANN – Não estou entendendo!

PREFEITO – Esse era então o preço para figurar no testamento do rancoroso Morten Kiil?

DRA. STOCKMANN (Quase sem voz) – Peter, você é o ser mais execrável que jamais encontrei na vida.

PREFEITO – Não há mais nada para conversar, Thamy. Sua demissão é irrevogável. Temos agora uma arma muito poderosa contra você. (Sai)

DRA. STOCKMANN (Indignada, aos gritos) – Catarina, manda lavar o assoalho onde este homem pisou! Que tragam um balde d’água. Chama… Como diabo se chama ela? Essa que está sempre com o nariz sujo de carvão.

SRA. STOCKMANN (Na porta da sala) – Psiu! Psiu! Thamy!

PETRA (Na porta) – Mamãe, o vovô está aqui e quer falar contigo um momento.

DRA. STOCKMANN – Claro. (Vai até a porta) Entre, meu sogro. (Entra Morten Kiil).

DRA. STOCKMANN – Então? O que se passa? Sente, por favor.

MORTEN KIIL – Não, obrigado. (Olha em volta) Sua casa hoje está muito confortável, Stockmann.

DRA. STOCKMANN – Obrigado.

MORTEN KIIL – Muito confortável! Corre uma agradável corrente de ar fresco. Noto que hoje você tem aqui bastante daquele oxigênio de que nos falou ontem. Que me diz? Sua consciência deve estar bem limpa hoje, não?

DRA. STOCKMANN – Naturalmente.

MORTEN KIIL – Imagino. (Bate no peito) Mas sabe você o que eu tenho aqui?

DRA. STOCKMANN – Espero que, também, a consciência limpa.

MORTEN KIIL – Coisa muito melhor. (Saca um volumoso envelope, abre e mostra um maço de documentos)

DRA. STOCKMANN (Olhando, admirado) – Ações da Estação Balneária?

MORTEN KIIL – Não era difícil consegui-las hoje.

DRA. STOCKMANN – E o senhor comprou isso?

MORTEN KIIL – Comprei. Tudo o que consegui, enquanto tive dinheiro.

DRA. STOCKMANN – Mas meu sogro, o senhor se esquece da precária situação em que se acha a Estação Balneária neste momento!

MORTEN KIIL (Sorrindo) – Se você souber proceder com prudência e ponderação, em pouco tempo tudo será resolvido.

DRA. STOCKMANN – Eu faço o que posso, meu sogro, mas todos enlouqueceram nesta cidade.

MORTEN KIIL – Ontem você disse que as piores imundíces que infectavam as águas vinham do meu curtume. Se isso fosse verdade, meu avô, meu pai e eu seríamos há quase cem anos a grande praga da cidade. Você acha que eu posso tolerar semelhante desonra sobre o meu nome?

DRA. STOCKMANN – Infelizmente, acho que terá de se conformar com isso.

MORTEN KIIL – Absolutamente! Eu prezo muito pelo meu nome e minha reputação. Até já me puseram o apelido de Leitão, e um leitão é uma espécie de porco que chafurda na sujeira. Mostrarei que não mereço este tipo de apelido e que viverei como sempre vivi: na mais completa limpeza.

DRA. STOCKMANN – E o que fará para isso?

MORTEN KIIL – Será você, Stockmann, quem limpará o meu nome.

DRA. STOCKMANN – Eu?

MORTEN KIIL – Sim, você! Sabe você com que dinheiro eu comprei estas ações? Não, você não pode saber. Pois bem! Foi com o dinheiro que Catarina, Petra e os rapazes deveriam herdar, um dia, quando eu morresse. Porque, apesar de tudo, eu tinha algumas economias, fique sabendo.

DRA. STOCKMANN (Com violência) – Como! É o dinheiro de Catarina que o senhor emprega dessa forma?

MORTEN KIIL – Sim, todo esse dinheiro está investido na Estação Balneária. E agora eu quero ver se você é realmente tão louca assim, Stockmann… Se vai continuar espalhando por aí que o lixo que infecta as águas vem do meu curtume. Pois divulgar estas mentiras significa prejudicar os interesses diretos de Catarina, de Petra, e dos rapazes também.

DRA. STOCKMANN (Caminhando de um lado para outro) – Eu sou louca, sim senhor, sou louca!

MORTEN KIIL – Mas quando se trata de sua mulher e dos seus filhos, você não é tão louca assim.

DRA. STOCKMANN – O senhor não podia me consultar antes de comprar essa papelada inútil?

MORTEN KIIL – Essas coisas não se pode esperar.

DRA. STOCKMANN (Indo e vindo, nervosa)… Se ao menos eu não tivesse tanta certeza disso…! Mas estou absolutamente convencida de que tenho razão.

MORTEN KIIL (Mostrando a carteira) – Se você insistir nessa loucura, estes papéis aqui vão se desvalorizar terrivelmente, vão virar pó! (Recoloca a carteira no bolso)

DRA. STOCKMANN – Mas, maldição! A ciência deve nos dar uma saída…

MORTEN KIIL – Para exterminar os micróbios?

DRA. STOCKMANN – Sim, ou ao menos torná-los inofensivos.

MORTEN KIIL – Você não poderia experimentar um veneno para ratos?

DRA. STOCKMANN – Isso é tolice! Pode até ser que eu esteja errada, já que todos estão de acordo em dizer que tudo isso é pura fantasia. Pode ser até que tenham razão! É pura fantasia. Se isso lhes convém… Não disseram que eu sou a inimiga do povo? Quase acabaram com a minha roupa…

MORTEN KIIL – E as vidraças todas!

DRA. STOCKMANN – Preciso consultar a Catarina. Ela é muito ponderada nessas questões.

MORTEN KIIL – Isso. Ouça os conselhos de uma mulher sensata.

DRA. STOCKMANN (Avançando sobre ele) – Porque o senhor foi fazer esta bobagem!? Arriscar assim o dinheiro de Catarina! Colocar-me nesta situação cruel, horrível! Você é o diabo em pessoa!

MORTEN KIIL – Nesse caso é melhor que eu me retire. Mas daqui a duas horas, quero saber qual foi a sua decisão se sim ou não. Se for não, transfiro as ações para o asilo hoje mesmo.

DRA. STOCKMANN – E Catarina? O que você vai deixar para ela?

MORTEN KIIL – Nem um vintém. (A porta da rua se abre e aparecem Hovstad e Aslaksen)

MORTEN KIIL. – Como! O que esses dois querem aqui?

DRA. STOCKMANN (Olhando-os) – Que! Atrevem-se a vir à minha casa?

HOVSTAD – Sim, como a senhora está vendo.

ASLAKSEN – É que temos algo para dizer-lhe.

MORTEN KIIL (Em voz baixa) – Sim, ou não. Você tem até as duas horas.

ASLAKSEN (Olhando para Hovstad) – Ah! Ah! (Morten Kiil sai)

DRA. STOCKMANN – Pois bem! O que vocês querem? Sejam breves!

HOVSTAD – Nós compreendemos que depois da nossa atitude de ontem, a senhora deva estar chateada conosco.

DRA. STOCKMANN (Faz cara de nojo) – Atitude! Vocês formam uma bela dupla de mau-caráter!

HOVSTAD – Interprete como quiser. O fato é que não podíamos agir de outra forma.

DRA. STOCKMANN – Ou, por outras palavras, não se atreveriam a agir de outra forma, não é?

HOVSTAD – Admitamos que sim.

ASLAKSEN – Mas por que a senhora não nos disse nada? Bastava uma palavra a Hovstad ou a mim.

DRA. STOCKMANN – Não estou entendendo!

ASLAKSEN – Era só ter nos confessado tudo, doutora!

DRA. STOCKMANN – Não sei do que vocês estão falando!

ASLAKSEN (Abanando a cabeça com ar malicioso) – Sabe sim, doutora, a senhora sabe muito bem.

HOVSTAD – Não há mais motivo para esconder.

DRA. STOCKMANN (Encara os dois e faz uma pausa) – Ora essa! O que significa isso?

ASLAKSEN – Não é verdade que o velho Kiil está percorrendo a cidade comprando todas as ações da Estação Balneária?

DRA. STOCKMANN – Sim, ele andou comprando ações hoje pela manhã.

ASLAKSEN – Não teria sido mais seguro encarregar desse serviço outra pessoa, alguém que não fosse tão chegado a sua família?

HOVSTAD – E, além disso, a senhora não deveria ter se exposto tanto. Devia ter me consultado, Dra. Stockmann.

DRA. STOCKMANN (Olha alguns instantes como sem entender e finalmente se dá conta das insinuações) – Santo Deus! Será possível que vocês podem pensar uma coisa dessas?

ASLAKSEN (Sorrindo) – A senhora poderia ter sido mais hábil, doutora!

HOVSTAD – E, além disso, é melhor ter várias pessoas no negócio. Dessa forma dilui a responsabilidade…

DRA. STOCKMANN (Contendo-se) – Resumindo, senhores, o que querem de mim?

ASLAKSEN – O Sr. Hovstad lhe dirá melhor do que eu.

HOVSTAD – Não, Aslaksen, diga-lhe você mesmo.

ASLAKSEN – Pois bem. Eis o negócio: agora que sabemos do que se trata, nós nos atreveríamos a pôr a Voz do Povo ao seu dispor.

DRA. STOCKMANN – Sério? Os senhores se atreveriam a fazê-lo? Mas… E a opinião pública? Não temem que ela se manifeste contra nós?

HOVSTAD – Procuraremos aplacar a tormenta.

ASLAKSEN – E, além disso, doutora, é preciso saber agir. Assim que seus ataques à Estação Balneária surtirem efeito…

DRA. STOCKMANN – Assim que meu sogro e eu tivermos comprado todas as ações a preço de banana… É isso que os senhores querem dizer?

HOVSTAD – Que será por interesse científico que a senhora assumirá a direção da Estação…

DRA. STOCKMANN – Claro! Foi por interesse da ciência que eu convenci o velho Leitão a participar desta jogada! Depois de tudo arranjado, revolveremos um pouco a terra e reforçaremos os encanamentos da água sem que isso custe uma coroa sequer aos cofres municipais. Vocês acham que assim ficará tudo bem?

HOVSTAD – Creio que sim. Mas a senhora precisará ter a Voz do seu lado.

ASLAKSEN – Nos países livres, doutora, a imprensa é o quarto poder.

DRA. STOCKMANN – E a opinião pública também. Aslaksen, o senhor deve se encarregar da Associação dos Pequenos Proprietários, não é?

ASLAKSEN – Tanto da Associação dos Pequenos Proprietários como da Sociedade da Moderação. Pode contar com isso.

DRA. STOCKMANN – Afinal, senhores, tenho vergonha de abordar o assunto, mas, enfim, que vantagens…

HOVSTAD – A senhora deve compreender que preferiríamos apoiá-la desinteressadamente. Infelizmente, a Voz do Povo não anda bem, estamos com graves problemas financeiros… E suspender a publicação, neste momento em que nosso partido tem tantas batalhas políticas por enfrentar, seria muito ruim para a comunidade.

DRA. STOCKMANN – Naturalmente. Seria uma lástima para amigos do povo como os senhores. (Exaltando-se) Mas eu, eu sou a inimiga desse povo. (Correndo pelo quarto) Onde está minha bengala? Onde diabos está a minha bengala?

ASLAKSEN – A senhora não pensa em…

DRA. STOCKMANN (Detém-se) – O que aconteceria se eu me recusasse a dar a vocês um vintém do lucro das minhas ações? Lembrem-se de que de nós, os ricos, não se tira o dinheiro tão facilmente.

HOVSTAD – A senhora tem que entender que há duas maneiras de explicar publicamente este negócio.

DRA. STOCKMANN – Claro! Se eu não der dinheiro, a Voz do Povo denunciará o negócio de forma terrível, desonesta! Me perseguirão, tentarão acabar comigo!

HOVSTAD – É a lei da natureza. A luta pela vida!

ASLAKSEN – É, doutora, busca-se a comida, onde há.

DRA. STOCKMANN – Pois, então, vão procurar a sua no esgoto. (Corre pelo quarto) Ah! Vamos ver qual de nós é o animal mais forte. (Apanha o guarda-chuva num gesto de ameaça) Agora sim, vamos!

HOVSTAD – A senhora não vai usar a violência!

ASLAKSEN – Por favor, solte esse guarda-chuva!

DRA. STOCKMANN – Vamos, Sr. Hovstad, salte pela janela!

HOVSTAD (Junto à porta) – A senhora está louca!

DRA. STOCKMANN – Pela janela, Sr. Aslaksen! Saltem, é uma ordem! Apressem-se!

ASLAKSEN (Correndo em volta da mesa) – Calma, moderação, doutora… Sou um homem fraco, isso me faz mal… (Gritando) Socorro! Socorro! (Entram a Sra. Stockmann, Petra e Horster)

SRA. STOCKMANN – Meu Deus! Thamy, que é isto?

DRA. STOCKMANN (Ameaçando com o guarda-chuva) – Saltem! Já lhes disse! Para o esgoto!

HOVSTAD – É um ataque contra um homem inofensivo! Apelo para o seu testemunho, Capitão Horster.

ASLAKSEN (Perplexo) – Se pelo menos eu conhecesse o caminho. (Passam para a sala)

SRA. STOCKMANN – Vamos, Thamy, acalme-se!

DRA. STOCKMANN (Largando o guarda-chuva) – Diabo! Afinal se foram!

SRA. STOCKMANN – Mas o que eles queriam contigo?

DRA. STOCKMANN – Eu conto mais tarde. Agora tenho outra coisa a fazer. (Vai até a escrivaninha e escreve num cartão de visita) Você vê o que está escrito aqui, Catarina?

SRA. STOCKMANN – Três “não” em letra maiúscula. Que quer dizer isso?

DRA. STOCKMANN – Você também saberá mais tarde. (Entregando o cartão a Petra) Toma, Petra, mande entregar isto ao seu avô, o mais depressa que puder. Anda! (Petra sai, com o cartão na mão)

DRA. STOCKMANN – Acho que o diabo me mandou hoje toda a sua assessoria. Ah! Mas agora vou afiar minha pena para transformá-la num dardo que molharei em bile e veneno.

SRA. STOCKMANN – Está certo, Thamy, mas você esquece que vamos partir. (Petra retoma)

DRA. STOCKMANN – E então?

PETRA – Está feito.

DRA. STOCKMANN – Ótimo. Você dizia que estamos de partida? Não, não vamos embora. Ficaremos onde estamos, Catarina.

PETRA – Aqui?

SRA. STOCKMANN – Nesta cidade?

DRA. STOCKMANN – Sim, nesta cidade. Começou a batalha e é aqui que eu vou vencer! Quando você consertar minhas calças, vou sair à procura de uma casa. Precisamos de um teto para passar o inverno.

HORSTER – A senhora pode ficar na minha casa.

DRA. STOCKMANN – É sério?

HORSTER – É claro. Não tem problema algum. Tenho muitos quartos e quase sempre estou viajando.

SRA. STOCKMANN – Que generosidade a sua, Capitão Horster.

PETRA – Obrigada.

DRA. STOCKMANN (Apertando-lhe a mão) – Obrigada, muito obrigada! Uma preocupação a menos. Vou começar a trabalhar imediatamente. Ainda tenho muita coisa a investigar. E felizmente tenho todo o tempo que precisar, afinal, fui demitida de médica do Balneário.

SRA. STOCKMANN – Minha querida Thamy, você bem viu onde levam os sermões.

DRA. STOCKMANN – Ora, Catarina, você me faz rir! Queria que eu me deixasse arrastar pela opinião dessa gente que só se move por interesses? Da tão propalada opinião pública, a famosa maioria silenciosa e todas essas baboseiras? Não, muito obrigada! O que eu quero é tão claro, tão simples! Eu quero que eles saibam – esses estúpidos que só dizem sim – que esses políticos pseudoliberais são os mais pérfidos inimigos dos homens livres. Eles inventaram os partidos políticos para policiar as consciências, exterminar as novas ideias e, portanto, não ter o seu poder ameaçado. Não é assim, Capitão Horster? Não acha que um dia os cidadãos de bem compreenderão isto?

HORSTER – É bem possível. Mas eu não entendo nada dessas coisas.

DRA. STOCKMANN – Entende, sim. Ouça-me com atenção! O que é preciso combater são os líderes dos partidos. Eles são como lobos famintos que precisam, para viver, de um rebanho de ovelhas. Veja, por exemplo, Hovstad e Aslaksen: quantas ovelhas eles devoram. Eles se alimentam da boa-fé das pessoas e tudo o que esperam delas é que se tornem ou proprietários de casas ou assinantes da Voz do Povo! (Recosta-se na mesa) Catarina, vem cá, vem ver como o sol manda seus raios generosos e como nos refresca a brisa da primavera que entra pela janela.

SRA. STOCKMANN – Sim, Thamy, mas não podemos viver somente de raios de sol e de brisas da primavera!

DRA. STOCKMANN – Verá que, se economizarmos, acabaremos equilibrando o orçamento. Isso é o que menos me preocupa. O pior é que não conheço ninguém suficientemente livre ou bastante leal para continuar minha missão depois que eu morrer. (Eilif e Martin entram, vindos da sala)

PETRA – Não pensa nisso mãe. Você tem muito tempo de luta pela frente. Como? Os garotos já chegaram?

SRA. STOCKMANN – Que é isso? Vocês não tiveram aula hoje?

MARTIN – É que brigamos com os outros meninos durante o recreio.

EILIF – Não é verdade: os outros é que brigaram conosco.

MARTIN – E então, o Sr. Roerlund nos disse que era melhor que ficássemos em casa durante uns dias, até as coisas acalmarem.

DRA. STOCKMANN (Estala os dedos e fica de pé) – Já sei! Está resolvido! Vocês nunca mais voltarão ao colégio!

OS MENINOS – Não voltaremos mais para o colégio, mãe? Nunca mais?

SRA. STOCKMANN – Que é isso, Thamy?

DRA. STOCKMANN – Nunca mais! Eu mesma vou me encarregar da educação de vocês.

MARTIN – Oba!

DRA. STOCKMANN – … E farei de vocês homens livres e dignos. E então, Petra, você me ajuda neste trabalho?

PETRA – Sim, mãe, podes contar comigo.

DRA. STOCKMANN – E as aulas serão justamente no salão onde eu fui proclamada inimiga do povo. Mas é preciso que sejamos um grupo. Necessito, para começar, pelo menos de doze garotos.

SRA. STOCKMANN – Você pode ter certeza de que não vai encontrar nesta cidade.

DRA. STOCKMANN – Veremos. (Aos pequenos) Vocês não conhecem alguns garotos de rua, alguns moleques?

MARTIN – Claro, mãe, conhecemos vários!

DRA. STOCKMANN – Muito bem. Quero que vocês os tragam aqui. São garotos que não têm oportunidade alguma e poderemos encontrar homens extraordinários entre eles.

MARTIN – E o que vamos fazer quando formos homens livres e dignos?

DRA. STOCKMANN – Aí vocês vão sair na caça dos lobos que infestam esta cidade.

SRA. STOCKMANN – Ah! Desde que os lobos não te cacem antes, Thamy…

DRA. STOCKMANN – Não diga isso, Catarina! Caçarem-me? A mim, que agora sou a pessoa mais poderosa da cidade?

SRA. STOCKMANN – Poderosa? Você?

DRA. STOCKMANN – E lhe digo mais, Catarina. Sinto-me agora, uma das pessoas mais poderosas do mundo!

MARTIN – Puxa!

DRA. STOCKMANN (Baixando a voz) – Psiu! Mas não digam por enquanto nada a ninguém, porque eu fiz uma grande descoberta.

SRA. STOCKMANN – Mais uma?

DRA. STOCKMANN – Sim, mais uma! (Reúne todos em sua volta e fala num tom confidencial) Ouçam com atenção o que lhes vou dizer: a pessoa mais poderosa que há no mundo é a que está mais só.

SRA. STOCKMANN (Sorrindo com um sinal de cabeça afetuoso) – Minha querida Thamy…

PETRA (Apertando-lhe as mãos num gesto de confiança) – Mãe!

FIM

Adaptação: Mirna Wabi-Sabi
Revisão: A Inimiga da Rainha e Lookas Souza




Fonte: Ainimiga.noblogs.org