Fevereiro 3, 2022
Do Jornal Mapa
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O ecossistema partidário rege-se por prioridades flexíveis, preocupações saltitantes e agendas de curto prazo e é um ambiente extremamente hostil para qualquer luta que se desenvolva fora do seu planeta. Cada vez que um partido se aproxima de um movimento social, este, se quiser sobreviver, deve colocar-se em modo defensivo activo. Quando, como acontece neste momento, a luta ganha força e balanço e se depara com a aproximação de vários partidos, o perigo multiplica-se. Havendo eleições nos finais de Janeiro, tudo se precipita ainda mais.

Do Barroso a Viana

No dia 23 de Outubro de 2021, aconteceu em Viana do Castelo a maior manifestação contra o recente plano de fomento mineiro português. Convocada por quatro movimentos minhotos, a marcha arrancou da vizinhança da ponte Eiffel e dirigiu-se para o centro da cidade. Os números variam entre as 1000 e as 2000 pessoas presentes, dependendo das fontes.

Um enorme trabalho de mobilização permitiu uma abrangência sem precedentes, combinando agricultores com intelectuais, anarquistas com presidentes de Câmara, ou adolescentes com dinossauros da música popular. Para este «sucesso» terão, sem dúvida, contribuído todos os combates passados, nomeadamente os deste Verão, que permitiram, entre outras coisas, o alargamento da luta a camadas mais jovens, urbanas e empenhadas, tendo o próprio movimento ecologista mais recente, nascido do combate contra as alterações climáticas, aproveitado o Estio para abandonar de vez os cantos de sereia da «descarbonização».

Por outro lado, se a «solidariedade entre todos os montes» era já uma realidade, o facto é que cresceu notoriamente com o acampamento de Covas do Barroso e teve uma erupção pública de enorme força na manifestação de Viana.

Aí estiveram também presentes os presidentes das Câmaras de todos os concelhos potencialmente afectados na Serra d’Arga: Viana do Castelo, Caminha, Vila Nova de Cerveira, Paredes de Coura e Ponte de Lima. À excepção deste último, que é do CDS-PP, todos são do PS. É importante recordar que, enquanto candidatos, nenhum destes edis trouxe a questão da mineração para a ordem do dia da campanha eleitoral autárquica. Na altura, que afinal fora pouco tempo antes, a questão parecia de importância menor.

É também importante não esquecer que, no mesmo dia em que o governo anunciou a abertura da consulta pública do Relatório de Avaliação Ambiental Preliminar do Programa de Prospecção e Pesquisa de Lítio, o presidente da Câmara de Caminha, Miguel Alves, anunciava um mega-projecto da Bosh, pomposamente chamado Centro de Ciência e Tecnologia, e que é, afinal, nas palavras do próprio, «uma área de acolhimento empresarial que vai permitir ter empresas ligadas ao cluster automóvel». A Bosh, aliás, pertence (juntamente com a Savannah, por exemplo) à Batpower, a Associação Portuguesa para o Cluster das Baterias.

O mesmo Miguel Alves que, na manifestação de Viana, dissera que «aqui no nosso território, aqui na Serra d’Arga, as multinacionais de exploração mineira não são bem-vindas», tinha acabado de dar as boas vindas a essas mesmas multinacionais. Esta atitude não passou despercebida a vários populares e também a adversários partidários e, durante a manifestação, as suas palavras foram acompanhadas de algum ruído crítico. Do mesmo modo, Luís Nobre, presidente da Câmara de Viana, que, na manifestação, afirmou que «vamos fazer tudo para que o processo [da exploração de lítio] não avance», tinha, dias antes, lançado a primeira pedra da nova unidade industrial de produção de motores eléctricos da BorgWarner, um projecto que a Câmara apoiou desde o início, nomeadamente ausentando a empresa do pagamento de IMT aquando da aquisição do terreno.

Dividir para reinar

O problema da vitória numa batalha que se prolonga para além dela é a sua gestão. Se, ao invés de ser factor de energia e união, se transformar numa corrida de egos pelos louros, essa vitória pode rapidamente transformar-se em erosão e até derrota. Os políticos profissionais sabem-no há muito. Os movimentos sociais, apesar de também o saberem, deixam-se muitas vezes levar por um caminho que chega a trocar o ataque aos engenheiros do plano mineiro pela luta contra companheiros de combate.

Logo no dia da manifestação, percebendo que os apupos que lhe eram dirigidos enquanto discursava eram incómodos também para alguns dos organizadores da marcha de protesto, Miguel Alves apostou na vitimização, como se a sua «liberdade de expressão» para dizer o contrário do que faz fosse mais legítima do que a de quem o contestava. Luís Nobre, órfão de um álibi tão perfeito, jogou mão de uma manipulação: no rescaldo da manifestação, ao invés de se congratular com a jornada, o Instagram da Câmara de Viana publicava uma imagem duma pichagem contra as minas, juntando-lhe o texto: «Todo o património deve ser protegido, seja ele natural ou edificado. A Câmara Municipal não pode deixar de repudiar actos de vandalismo como este ao nosso património edificado, ainda que o tema seja a defesa do património natural».

Mais do que trazer algo de positivo a esta luta, a presença dos presidentes de Câmara foi um mero desfile publicitário descomprometido. Talvez até uma forma de esvaziamento. E, assim, mais do que pretenderem alargar o rio de energia e solidariedade que a manifestação trouxera a todos, estes figurantes da luta decidiram lançar o isco da divisão. O regresso da velha história dos manifestantes «bons» em combate contra os manifestantes «maus», de forma a que deixem de apontar ao inimigo comum. Numa altura em que a presença dos partidos políticos é cada vez mais real e numa luta em que o mediatismo é chave e, a armadilha é largada com segurança.

O período de consulta pública do Relatório de Avaliação Ambiental Preliminar terminou em Dezembro e houve um volume enorme de participações, a maioria enunciando pronúncias negativas. Manifestaram-se contra o relatório os movimentos em luta, mas também executivos camarários de partidos que, enquanto estrutura nacional, defendem o plano de fomento mineiro. Ainda assim, e esses edis sabem-no bem, o que é expectável é que todas essas contestações não resultem em nada que prejudique os interesses da mineração. Enfim… do que sobrar da destruição resultante das aproximações partidárias, sobretudo durante todo o mês de Janeiro, se farão as bases da luta que vem e que será muita e intensa.

(Artigo publicado na versão em papel do Jornal Mapa nº33)




Fonte: Jornalmapa.pt