Junho 6, 2021
Do Passa Palavra
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Por João Aguiar

1. Um ponto de partida. Arte, ciência e narrativas

1.1

Este artigo teve como ponto de partida um tema não relacionável diretamente. Como se procurará demonstrar, o exercício do debate e da racionalidade fornecem pistas para novas reflexões. É o que procurarei fazer.

Num comentário que enderecei no artigo “Arte e espelho. 10” do João Bernardo, a propósito das discrepâncias da abordagem de alguma esquerda à arte e à ciência, o autor responde-me o seguinte:

«Como se explica que os identitarismos tenham perante a arte e a ideologia o mesmo comportamento que caracterizou o stalinismo? E, no entanto, os pressupostos ideológicos de um e outros são inteiramente distintos. É como se a esquerda — aquilo a que se convenciona chamar esquerda — tivesse a mesma reacção independentemente das ideias que defende. Dá-se com o martelinho no joelho e zás! Levanta a perna. Mas, neste caso, as ideias evocadas de pouco valeriam, seriam apenas o álibi de uma prática antecipadamente definida. Tu escreveste: “O curioso é que se os identitaristas/puritanos utilizam uma visão que se quer ausente de equívocos na leitura das obras de arte, o mesmo já não ocorre no que toca à ciência”. Mas foi também o se passou com o stalinismo, que enquanto impunha o zhdanovismo na arte tentava impor na biologia as doutrinas de Lysenko».

De facto, essa comparação entre o stalinismo e a esquerda identitária faz todo o sentido. Apesar das diferentes proveniências históricas e ideológicas, ambas as esquerdas partilham a discrepância entre o monolitismo sobre a arte e o subjetivismo irracionalista sobre a ciência. Se se levar este raciocínio ao extremo, esta discrepância encontra-se igualmente na extrema-direita. Talvez isto se relacione com o facto de nas franjas do sistema político grande parte da atividade dos seus dirigentes se relacionar quase exclusivamente com aspetos não materiais e não económicos? Vejamos em que consiste essa relação com uma dimensão propriamente ideológica.

1.2

Nas democracias liberais, os partidos do centro operam numa plataforma de confluência entre as empresas, a atividade económica e o Estado no sentido da efetiva administração quotidiana – o que lhes vale a crítica da promiscuidade de interesses entre os negócios privados e o “bem público”. Estes são os gestores no sentido clássico.

A congruência entre a prática e a ideologia repercute-se na assunção partilhada de um liberalismo económico, independentemente de diferenças entre si – diferenças que, para a vida quotidiana das pessoas comuns, podem ter um impacto diferenciador imediato, mas sem influência estrutural em termos da gestão de aspetos nevrálgicos do modo de produção.

A congruência nos gestores clássicos (e quando me refiro a clássicos não estou a classificá-los como mais velhos historicamente, mas simplesmente à sua hegemonia – se calhar, essa será a sua designação mais exata: gestores hegemónicos), como estava a dizer, a congruência dos gestores capitalistas clássicos/hegemónicos implica que a sua ideologia não coloque em causa a sua prática nem a das estruturas onde se inserem: a gestão das empresas e do Estado na base da expansão da extração de valor económico.

Contudo, nas franjas do sistema político, à esquerda e à direita, a origem profissional dos seus dirigentes ou ativistas raramente advém da administração de empresas ou das direções gerais do Estado. Pelo contrário, são políticos/ativistas desde a sua origem, marcando indelevelmente a trajetória de vida pessoal, profissional e as suas sociabilidades. Em termos de congruência, se a sua prática não tem fundamentos utilitaristas de base (expandir os negócios e a produtividade do trabalho, gerir tensões e relações laborais nas empresas, negociar interesses competidores), então a sua prática só pode ser constitutivamente ideológica. Gestores ideológicos?

1.3

Se o que estou a escrever fizer algum sentido, então a sua avaliação genérica do mundo social relaciona-se necessariamente com algum tipo de irracionalismo. E se o racionalismo empresarial/burocrático da gestão se rege pelo cálculo económico e desprovido de narrativas, o irracionalismo implica a construção de narrativas. Menciono alguns exemplos díspares:

  • a nação como entidade que viria do fundo dos tempos (o nacionalismo);
  • a raça superior em perigo pela maior procriação e promiscuidade das raças inferiores (o racismo excludente);
  • o estado de apatia histórica dos trabalhadores que só poderia ser revertido por uma elite esclarecida e dotada de instrumentos políticos de vanguarda, com um caminho político definido por uma direção sempre exata e profissional (o vanguardismo das elites do socialismo “científico”);
  • a crença de que o Estado conseguiria gerir toda a economia com eficiência, com o setor da produção de meios de produção na dianteira e que os dirigentes partidários e estatais seriam meras emanações da classe trabalhadora (capitalismo/socialismo nacional);
  • só teria ocorrido escravidão no comércio transatlântico e os efeitos continuariam hoje, essencializados sobretudo no grau mais inconsciente do “privilégio branco”: as palavras (identitarismo pós-colonial e o politicamente correto).

Evidentemente, todas estas e muitas outras narrativas/construções ideológicas não se equivalem nas consequências e nas práticas, apesar de não ser rara a sobreposição de aspetos destas narrativas.

Relativamente à arte, na medida em que esta tem uma componente narrativa (uma componente secundária como o João Bernardo discutiu na série de artigos Arte e espelho), a arte só pode ser avaliada por certa extrema-esquerda nesse mesmo âmbito: como uma narrativa. Neste passo, a narrativa artística terá de ser coadunar com o seu projeto político. Daí o caráter unívoco com que a arte é avaliada.

No que diz respeito à ciência e à sua relação com a esquerda identitária. Se tudo é ideológico ou uma narrativa, o conhecimento científico ou é visto como uma construção social (vide o pós-modernismo), portanto competidor com as prerrogativas dos gestores ideológicos; ou é instrumental a determinados propósitos políticos. Ou seja, nos parâmetros dos movimentos contra-científicos, que à esquerda ou à direita buscam avançar uma agenda pseudocientífica na área das vacinas, das erradamente designadas “medicinas alternativas”, da energia nuclear ou do aquecimento global, o subjetivismo prevalece. Neste quadro, a ciência enquanto tal – e refiro-me aqui às Ciências Naturais na sua dimensão pura ou aplicada – não existiria autonomamente enquanto campo produtor de conhecimento a partir de postulados como a experimentação, a sistematicidade, a replicação de resultados, a dúvida e a inquirição como prática. Dito de outra maneira, a ciência lida com dados e factos derivados da experimentação e da replicação dos resultados pela comunidade científica por estudos em muitas outras partes do mundo. Nada disto encaixa numa agenda pseudocientífica dos gestores ideológicos, movida por uma prática fundamentalmente ideológica. E esta é sempre voluntarista.

Os que desempenham a função do trabalho (os trabalhadores) e os que desempenham a função do capital e do controlo do processo global de produção económica (os capitalistas – burguesia + gestores hegemónicos) representam funções opostas, antagónicas, mas funcionalmente integradas no capitalismo. No caso dos gestores ideológicos, a sua plena integração nas múltiplas esferas ideológicas e políticas significa que o móbil da sua ação política não deriva da inserção nas estruturas materiais do capitalismo. Temos assim uma prática voluntarista, expressão de uma mundivisão ancorada no irracionalismo.

Este artigo compõe-se de quatro partes, que serão publicadas semanalmente. 2ª Parte: Duas classes dos gestores? As contradições entre a administração do capitalismo e a coexistência de princípios metacapitalistas. 3ª Parte: A ideologia como universo integrado e multiforme: os campos de atuação dos gestores ideológicos. 4ª Parte: Mais dois campos de atuação dos gestores ideológicos: do ecologismo ao identitarismo. Conclusão.

O texto está ilustrado com instalações de Doris Salcedo (1958 –       ).




Fonte: Passapalavra.info