Junho 27, 2021
Do Passa Palavra
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Por João Aguiar

4. Mais dois campos de atuação dos gestores ideológicos: do ecologismo ao identitarismo. Conclusão

4.1

A ampliação da esfera simbólico-ideológica no contexto do atual capitalismo reflete-se também no ecologismo. O ecologismo consiste num conjunto de crenças em que:

  • a natureza é um dado adquirido a que a humanidade se teria dedicado a destruir;
  • qualquer transformação de base industrial e/ou urbana implicaria um afastamento de uma entidade mítica natural;
  • a produção humana moderna contaminaria inapelavelmente o ambiente e a alimentação com químicos;
  • a humanidade estaria à beira do abismo e da extinção.

Estas dimensões do ecologismo contribuem para entravar o desenvolvimento da mais-valia relativa, apesar de estarem a ser parcialmente reapropriadas pelas grandes empresas. De facto, o ecologismo é fundamentalmente uma crença, ou se se preferir, um irracionalismo fanático sobre os humanos e a sociedade. Não lhe bastava assentar em pressupostos sem o mínimo de razoabilidade. Por exemplo, esquece que todas as funções fisiológicas humanas, como respirar, beber ou reproduzir, têm sempre como base reações químicas: trocas de eletrões e modificações moleculares. A isto acrescenta o facto de fomentar uma estratégia de decrescimento. Por exemplo, relativamente ao aquecimento global, os ecologistas rejeitam algumas das vias de superação desse problema, como a aposta em organismos geneticamente modificados ou na energia nuclear, uma forma de energia com quase nulas emissões de gases de estufa. A imagem do “apocalipse que vem”, ou de uma extinção massiva ao virar da esquina, cumpre uma função ideológica e permite desenvolver uma camada de gestores ideológicos em ONG’s e associações ecologistas, que preferem promover o desespero e rejeitar o debate sobre a importância de se investir em tecnologias avançadas como, por exemplo, as possibilidades que a fusão nuclear poderá vir a oferecer. O mesmo se aplica à quimiofobia e à incompreensão relativa a novas tecnologias avançadas aplicadas à agricultura.

Numa esfera diferente, mas recheada de irracionalismo, o fundamentalismo religioso reflete outro dos vetores intrínsecos ao poder da esfera simbólico-ideológica. Também aqui se constitui uma camada de gestores e seguidores, que fazem da intolerância e do fanatismo a sua mola dinamizadora. Independentemente de rivalidades entre si, as elites religiosas e militares em regimes teocráticos como o Irão e em organizações como o Hamas, o Boko Haram ou o Estado Islâmico representam um exemplo possível de como, apesar da sua rivalidade interna, o fundamentalismo religioso atua como uma alavanca do irracionalismo. E de como é um setor de onde se ampliam agrupamentos de gestores ideológicos das mais diversas religiões, com particular ênfase nos radicais islâmicos, mas sem esquecer as organizações pentecostais americanas e sul-americanas.

4.2

Muito mais do que um registo partidário de esquerda ou direita, trata-se aqui de princípios de organização e de atuação. Evidentemente, existem diferenças nunca negligenciáveis internas a este tipo de gestores. Mas este tipo de gestores carreia a sua orientação prática numa base consentânea com modalidades de irracionalismo. Ora, este não é apresentado de modo programático, como se tratasse de um panfleto partidário a que ninguém dá ouvidos. Pelo contrário, o segredo do seu sucesso encontra-se na sua transmutação num acervo de lugares comuns, numa prática alargada e assumida por franjas significativas da população. Especialmente em camadas que se auto-identificam como de classe média, essa comunidade simbólico-ideológica que pretende unificar ideologicamente gestores, pequenos e médios proprietários e trabalhadores de determinados serviços. Quanto mais a realidade social surge como imaterial, desprovida de contradições e onde o conhecimento científico é deslegitimado, mais crescem as condições para a expansão dos gestores ideológicos.

4.3

O identitarismo pós-colonial parte do pressuposto matriz de que o racionalismo e o conhecimento científico objetivo não passariam de discursos de homens brancos ocidentais, colonialistas e heterossexuais. A litania de somar adjetivos considerados ofensivos faz da luta política um sucedâneo da coleção de insultos e de categorias definidas a priori pelos agrupamentos identitários. Temos assim que o identitarismo é partidário do irracionalismo nos princípios e nos métodos. Nos princípios, porque rejeita o racionalismo enquanto conquista humana universal e cataloga-o como “ocidental” e “branco”. Neste passo não é apenas o racionalismo o atingido. São também negados aos “não-ocidentais” o acesso pleno de algo que é de todos: a faculdade para raciocinar de forma objetiva, sistemática e exterior ao mero impulso voluntarista. Mas o identitarismo é irracionalista nos métodos, na medida em que executa uma cisão do racionalismo relativamente à sua aplicabilidade universal. De facto, os identitarismos atribuem origens míticas a um suposto caráter ocidental, levando a cabo uma operação ideológica similar e simétrica à dos conservadores tradicionalistas germânicos (portanto, ocidentais) do século XVIII e XIX: uma genealogia das origens a partir de pressuposições exclusivistas e particulares. O mesmo processo foi executado pelos inventores das nações modernas no século XIX: os ocidentais. Portanto, relativamente ao racionalismo, os cultores do identitarismo executam os mesmos passos de um certo tipo de ocidentais do século XVIII e XIX – os adeptos do Romantismo e dos irracionalismos conservadores.

No caso dos identitarismos pós-coloniais baseados na raça, os procedimentos são muito idênticos aos do irracionalismo. Ou seja, tal como no identitarismo em geral, os identitarismos pós-coloniais não apenas privilegiam uma bandeira irracionalista – a raça. De facto, aplicam métodos irracionalistas. Em pleno conflito mundial, o antropólogo Ashley Montagu escreveria que «ninguém parece saber exatamente o que é uma “raça”, mas todos estão muito ansiosos por dizê-la» (The Genetical Theory of Race and Anthoropological Method. American Anthropologist 44, vol 3 de Julho a Setembro de 1942), por evocá-la. Os critérios para a definição das raças são aleatórios e não existem dados objetivos que possam relacionar de uma forma unívoca e linear um fenótipo (a cor da pele, etc.) e características comportamentais cristalizadas e autónomas de um determinado agrupamento.

Esta génese irracionalista do racismo procurou sempre arrecadar elementos de (suposta) objetividade para o seu seio. O eugenismo corresponde ao exemplo mais flagrante de tentativa de dar objetividade aos preconceitos rácicos. Mais recentemente, em 1994, no livro The Bell Curve, Richard Herrnstein e Charles Murray defenderam que os negros americanos seriam menos inteligentes do que os brancos e os asiáticos. O livro foi largamente criticado pela comunidade científica, apesar da sua popularidade comercial. Se a colagem de dados supostamente recolhidos de forma idónea a particularidades rácicas fosse verdadeira – algo rebatido pela Associação Americana de Psicologia – mesmo assim, a ordem de causalidade estaria invertida. Isto é, os resultados escolares ou os resultados nos testes de QI não derivariam de traços fisionómicos superficiais, mas do discrepante acesso ao conhecimento e à educação escolar. Este exemplo de uma manifestação proto-racista aproveitada pelos supremacistas brancos só pode ser contraposta de duas maneiras. Cientificamente, como a generalidade da comunidade científica fez, ao demonstrar a ausência de conexão entre a inteligência humana e as raças. E, politicamente, ao enfatizar a necessidade de superar os preconceitos rácicos em favor de um universalismo e de um racionalismo. Neste caso, o racionalismo permite sustentar a cadeia de acontecimentos no tecido histórico e o universalismo enfatiza o património comum da humanidade, em favor de uma progressiva integração de todos, esquecendo particularismos superficiais e fonte de estigma e de ódio.

Inversamente, a resposta dos identitarismos baseados na raça às diversas manifestações do supremacismo branco tem procurado acentuar ainda mais a cor da pele ou aspetos étnicos como critérios de identificação pessoal e política. Neste momento, está em discussão na Califórnia uma alteração dos currículos escolares de Matemática para menores de 12 anos. De acordo com um manual (equitablemath.org) apresentado por uma série de comités e da direção estatal para a área da Educação, a Matemática induziria elementos de discriminação racial. Nesta perspetiva, a busca pelas respostas certas seria uma «forma linear» de ensinar matemática, já que se concentra em «chegar a uma resposta certa» e em esperar dos alunos que «apresentem o seu trabalho» e que este seja classificado. Mas o manual vai ainda mais longe e prescreve que «o conceito de matemática ser puramente objetivo é inequivocamente falso» e que o facto de «existirem sempre respostas certas e erradas perpetua a “objetividade”», uma característica atribuída falsamente ao privilégio branco ou ocidental. No mesmo sentido, uma professora de Matemática da Universidade de Illinois defendeu num manual para colegas seus que, «em muitos níveis, a matemática opera como branquitude [whiteness]», chegando a dar o exemplo que a ênfase da Matemática no Pi (π) e na matemática pitagórica seria um exemplo do privilégio ocidental. Uma pessoa fica sem saber o que dizer… Em termos históricos, a Grécia Antiga não se percecionava na altura como europeia e estava em comunicação imbricada com todo o Mundo Oriental. E em termos matemáticos, o Pi corresponde ao rácio de uma circunferência em relação ao seu diâmetro, permitindo calcular o perímetro e a área do círculo. Como cereja no topo do bolo, a mesma professora remata dizendo que «as coisas não podem ser conhecidas objetivamente», mas subjetivamente. A carta de intenções deste tipo de manifestações parte geralmente das dificuldades do ensino da Matemática em determinados contextos sociais e culturais. Contudo, o percurso adotado não é o de demonstrar a universalidade da Matemática e do conhecimento científico, mas o de particularizar e o de relativizar o racionalismo e o pensamento matemático. Em vez da reivindicação de mais apoios pedagógicos e docentes, o identitarismo pós-colonial tende a favorecer uma etnicização dos conteúdos e dos públicos escolares. De facto, a Matemática conforme a conhecemos tem raízes que vão da Índia à Arábia, incluindo os próprios algarismos de 0 a 9. E a objetividade que a Matemática confere não é de lado nenhum em específico, mas de todos. O cálculo da velocidade com que os astros se movem e que os impulsos nervosos demoram do córtex cerebral aos músculos, ou os ângulos certos e os cálculos objetivos para que os edifícios em que estas luminárias escrevem estas coisas não lhes desabem em cima, tudo isto e muitíssimo mais não tem nenhuma raiz cultural fixa e imanente. Mas isto seria cómico não fosse o facto de os gestores ideológicos estarem a efetuar tentativas de saltar das suas instituições de origem (movimentos e agrupamentos políticos e ideológicos) para a prossecução de políticas públicas. Se os anti-vacinas e todos os defensores das “medicinas alternativas” tentam influenciar as políticas de saúde, os críticos da Matemática e da objetividade do conhecimento científico estão a tentar conquistar espaço no sistema educativo. Se de um lado do espectro dos gestores ideológicos temos os lunáticos dos supremacistas brancos, que ganharam força com os governos populistas de Trump e Bolsonaro e que continuam a sonhar com um regresso ao segregacionismo controlado por uma elite branca, do outro lado, o panorama não é particularmente frutuoso. Se existe um mar de diferenças entre as duas extremidades da tenaz dos identitarismos, existe uma raiz comum a uni-los: o irracionalismo. E é esta raiz que permite o irracionalismo difundir-se de um modo capilar por toda a sociedade. Tal como uma grande empresa transnacional de vestuário produz múltiplas e distintas peças de roupa com inúmeros padrões, tecidos ou cortes para satisfazer um público consumidor altamente diversificado, também os gestores ideológicos operam num modo análogo para públicos com expectativas diferentes. O racismo anti-negro de uns convive com propostas irmanadas com o racismo de outros, envolvendo uma plêiade de segmentos populacionais num embrulho identitário e irracionalista. Tal como Codreanu e a Legião contra Antonescu no fascismo romeno do século XX, ou como Kita Ikki e seus seguidores contra os militares nipónicos fascistas, que um dos lados queira aniquilar o outro, nada disso obsta ao aprofundamento e à difusão de múltiplas manifestações irracionalistas.

4.4

Como classe dominante, os gestores constituem-se em torno de dois segmentos, mas a autonomia relativa de um dos pólos inflete uma perspetiva simbólico-ideológica e não estritamente instrumental/funcional. Os gestores clássicos observam a produção simbólica no intuito de a adaptar ao incremento da rentabilidade dos negócios e dos investimentos. Inversamente, na mundivisão dos gestores ideológicos, existe uma constante deriva para produzir novos conteúdos ideológicos, e que se desliguem dos mecanismos da rentabilidade económica capitalista. Por exemplo, uma não aposta na energia nuclear atrasa a eficiência energética, restringe o aumento da produtividade nas condições gerais de produção, não combate os efeitos do aquecimento global que alguns setores ecologistas dizem combater. Um desprezo pelos OGMs mantém condições de mais-valia absoluta nos campos de muitas zonas do planeta, o que implica maiores áreas de cultivo para compensar atrasos na produtividade agrícola. Tal como o anti-semitismo nacional-socialista, o anti-semitismo do radicalismo islâmico limita-se a criar condições para a perpetuação de conflitos bélicos e de elites religiosas contrárias a qualquer modernização económica, social ou cultural (direitos das mulheres, laborais, entre outros).

Por sua vez, o identitarismo pós-colonial assume a cor da pele como arma política. Para qualquer anti-racista é inquestionável que discriminar ou avaliar alguém a partir da cor da pele ou de aspetos exteriores/superficiais é uma barbaridade. Em termos humanos, será o irracionalismo mais hediondo e é seguramente o que mais vítimas causou nos últimos séculos. Em vez de procurar conjugar todos os explorados de todas as cores, o identitarismo pós-colonial opera dentro de procedimentos de fragmentação social, colocando frente a frente as “pessoas de cor” (omitindo as elites e as classes sociais internas a essa “comunidade” ideológica) e os brancos/ocidentais (como se não houvesse brancos exploradores e brancos explorados). Reflita-se também no facto de que a ênfase reiterada nos conceitos de negritude e de branquitude esteja a criar perceções generalizadas em termos rácicos. O convite reiterado para que as pessoas se identifiquem como A, B ou C, a obsessão identitarista não tem uma só direção. O fortalecimento dos identitarismos pós-coloniais e do supremacismo branco contribuem para criar comunidades ideológicas e raciais inimigas, edificando barreiras entre os explorados.

De um modo geral, os gestores ideológicos organizam-se em organizações multidiversificadas, mesmo concorrentes ou opostas entre si. Todavia, têm como fio condutor a propagação de uma qualquer forma de irracionalismo, nomeadamente nos moldes descritos nas secções 3.2 a 4.3 deste artigo. A somar a uma determinada forma de irracionalismo exposta enquanto negação ideológica e liminar do existente (vd. secção 2.3), os gestores ideológicos operam na base de dicotomias internas ao seu campo de atuação. Por exemplo, nos identitarismos é prática comum surgirem dois campos altamente conflituosos e opostos entre si. Tal facto contribui para transformar o debate do racismo ou do sexismo num circuito fechado de particularismos em destaque. No século XX, o movimento comunista afeto à União Soviética defendeu nacionalismos alternativos aos nacionalismos dos fascistas. Atualmente, o identitarismo pós-colonial afirma um particularismo distinto, mas concorrente dos particularismos dos supremacistas brancos. No quadro do ecologismo, pode-se observar a competição entre negacionistas do aquecimento global (na direita do espectro político) e defensores do decrescimento e contrários à energia nuclear e aos OGMs (na esquerda do espectro político).

Por conseguinte, opera-se uma lógica de competição de irracionalismos, independentemente das naturais origens e diferentes consequências práticas. O facto é que o campo dos possíveis, o campo do debate fecha-se num eixo de irracionalismos, conferindo uma hegemonia política ao conjunto dos gestores ideológicos. No século XX, os gestores clássicos capitalistas dividiram-se entre os que conferiam primazia (ou quase exclusividade) à intervenção económica do Estado e os que conferiam primazia à intervenção própria das empresas, enquanto o capitalismo avançava vitorioso. Na atualidade, os gestores ideológicos operam um processo análogo.

Os gestores ideológicos constituem-se como o nó articulador das contradições entre o capitalismo, a sua legitimação ideológica e as manifestações meta-capitalistas inscritas no desenvolvimento das esferas simbólico-ideológicas das últimas décadas. Simultânea vanguarda estética do capitalismo e dos princípios meta-capitalistas?

Este artigo compõe-se de quatro partes. 1ª Parte: Um ponto de partida. Arte, ciência e narrativas. 2ª Parte: Duas classes dos gestores? As contradições entre a administração do capitalismo e a coexistência de princípios metacapitalistas. 3ª Parte: A ideologia como universo integrado e multiforme: os campos de atuação dos gestores ideológicos.

Este texto está ilustrado com imagens extraídas das bandas desenhadas de Enki Bilal (1951-       ).




Fonte: Passapalavra.info