Março 20, 2021
Do Jornal Mapa
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A Primavera AgroEcológica, tem lugar entre 21 de Março e 1 de Maio. A iniciativa pretende estimular o debate crítico sobre os caminhos para a transição Agroecológica. Uma iniciativa do GAIA co-organizada com mais de 20 parceiros/as e um programa com mais de 25 eventos – na sua maioria online – que irão abordar as dimensões práticas, éticas, cientificas, económicas, sociais, políticas e culturais da Agroecologia. 

Programa PrimaverAE

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As actualizações diárias e o desenrolar das conversas, debates e reflexões podem ser seguidas na pagina Facebook da PrimaverAE2021. O Jornal MAPA falou com os seus promotores, a associação ecologista GAIA.

Filipe Nunes: De que agroecologia falamos e quem a pratica hoje em Portugal?

Essa é a pergunta a que a PrimaverAE quer começar a responder. Num projeto internacional de criação de um curso de agroecologia foi pedido ao GAIA que fizesse um levantamento da situação em Portugal. Percebemos que há entendimentos variados sobre o que é Agroecologia, que toma várias formas de agricultura ecológica e sustentável, como a Biodinâmica, Permacultura, Sintrópica, agricultura urbana, etc.. A pesquisa levou-nos à agricultura familiar e de pequena escala com as suas práticas agrícolas tradicionais mantidas ao longo de gerações, tendo sido como uma guardiã das paisagens. Estas práticas integram as tradições culturais do lugar, criando os ofícios, a gastronomia ou as celebrações, que mantêm comunidades unidas, com práticas de apoio mútuo estabelecidas. Mas também encontramos a chamada «Agroecologia Lixo», um termo que caracteriza o uso das técnicas agroecológicas por corporações não só como marketing verde, mas sobretudo como adaptação às alterações climáticas. Na academia, assistimos à emergência de uma disciplina que estuda e desenha sistemas alimentares sustentáveis, de forma transdisciplinar e participativa, promovendo o diálogo horizontal entre a academia e diferentes sistemas de conhecimento, como o tradicional ou o profissional. Finalmente, vimos a agroecologia como um movimento social político internacional, protagonizado por associações camponesas e comunidades locais, piscatórias ou pastoris, que lutam pelo direito de acesso à terra, às sementes, aos mercados e às políticas e a manterem o seu modo de vida tradicional, actualmente ameaçado pela agroindústria. É a este movimento que o GAIA gostaria de dar visibilidade, como um movimento com um fim de transformação social, baseado na solidariedade, justiça e dignidade de quem faz com e da terra o seu modo de vida.

Falam de transição agroecológica num contexto planetário de crise ecológica e social. Atendendo à soberania alimentar e a crescente demanda alimentar demográfica, como responder à solução da industrialização da produção alimentar? É possível ir para lá da ideia de nichos de produção e consumo…

Nos ecossistemas vemos nichos como respostas naturais a determinados contextos seja de clima, nutrientes, solo ou seres que os habitam. E os próprios ecossistemas são em si nichos maiores. Num paralelismo com a forma como a humanidade se organiza, o problema estará na criação de nichos ou na globalização e mercantilização do que é comum? Grupos de consumo autónomos (com diversos nomes, AMAPs, CSAs, GAKs…) mostram-nos coletivos baseados em relações de proximidade. Essas relações desenvolvem formas de organização local, comunicando com a vizinhança, cuidando a terra, gerindo a água, conservando as sementes livres, nutrindo o solo. As respostas encontradas em autonomia e autogestão, dão origem à partilha de responsabilidades na interacção com o ecossistema em causa. E isso é um nicho que se torna resiliente na sua vivência com a constante mudança. Os sistemas de policultura agro-silvopastoris apresentam maior adaptação a perturbações externas com recuperação da produção. Ao contrário, a produção industrial intensiva e de monocultura está condenada pela sua baixa resiliência a perturbações, como a variação no preço do petróleo e fenómenos climáticos extremos. Enquanto o modelo agroindustrial é intensivo em consumos derivados do petróleo, o modelo agroecológico é intensivo em conhecimento e mão de obra, sendo central a sua dimensão social e comunitária. Sabe-se hoje que a fome no mundo não deriva da falta de produção mas de um problema estrutural de distribuição e acesso ao alimento. E a agricultura familiar e de pequena escala continua a ser responsável pela maior parte da produção alimentar mundial (mesmo detendo apenas 25% dos terrenos agrícolas). Políticas como a PAC, desenhadas para apoiar os mercados agro-alimentares globais, têm de ser revertidas para apoiar a agricultura familiar, de pequena escala e a criação de circuitos comerciais de proximidade, que sejam socialmente justos, biológica e culturalmente diversos, no sentido da auto-suficiência das regiões, construindo assim uma soberania alimentar resiliente às alterações climáticas.

A pandemia tornou evidente a indispensabilidade da proximidade dos circuitos alimentares. Nesse desenho de redes que se proporciona, qual o projecto social e político da agroecologia em contraponto ao delinear dessas redes pela mera lógica dos mercados?

Assistimos a uma tensão entre dois modelos distintos de produção alimentar, o coorporativo e o camponês, seja tradicional ou neo-rural. A agroecologia reclama justiça nas relações ecológicas e sociais, afirmando-se feminista, anticolonialista e anti-imperialista pela soberania alimentar dos povos. Quer-se enraizada nos territórios, onde diferentes agroecologias se adaptam ao local. A sua base é a cooperação, com necessidades de mão-de-obra e de conhecimento, facilitadas por processos de educação de base comunitária e emancipatória, entre pares. A agroecologia reconhece a complexidade das várias inter-relações e interdependências dos ecossistemas a que pertencemos, diversificando e apoiando relações justas e procurando a viabilidade da produção aos níveis económico, social, cultural, espiritual e material. Esta é uma cosmovisão oposta à da agroindústria, que visa acumular capital económico de produção levando à degradação ambiental e do tecido social, enquanto a agroecologia integra as comunidades humanas nas comunidades ecológicas que, em inter-relação, tecem a teia da vida deste planeta.


Texto de Filipe Nunes [filipenunes@jornalmapa.pt]  

Fotografias de cam camarena © [http://www.camarenaphoto.com/]


Entrevista publicada no Jornal Mapa, edição #30, Março 2021 | Maio 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt