Junho 13, 2021
Do Colectivo Libertario Evora
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Em defesa dos militantes antifascistas libertários face às tentativas de apagamento levadas a cabo pelo PCP. Texto do PCP: https://www.pcp.pt/100anos

É histórica a tendência dentro do movimento operário de se realizarem ataques a outras correntes comunistas e socialistas dentro do mesmo. Existiu ao longo do último século particularmente uma luta pela hegemonia dentro do movimento, sempre à custa da vontade de milhares de operários. Nós reconhecemos isso com plena sobriedade. Contudo cremos existirem limites para a mesquinhice e a desonestidade intelectual a roçar a falta de respeito para com os milhares de operários que resistiram à ditadura dentro e através da CGT. Nós não temos qualquer interesse em lutar por uma hegemonia fictícia do que foi um movimento de massas, e não de ideologias ao contrário do que alguns parecem querer fazer. Depois do centenário do PCP os camaradas decidiram, e bem, escrever alguns textos a descrever o que foram então estes 100 anos de luta. Contudo, as heranças stalinistas parecem teimar em não desaparecer desde os anos da criação do partido e sendo assim, mais importante do que descrever a verdade e os factos da época, assistimos a uma tentativa falaciosa de pintar uma imagem de que só com a criação do PCP a classe operária portuguesa obteve uma “correcta posição de classe”.

O primeiro pedaço de revisionismo histórico aparece sob este rico parágrafo – rico, entenda-se por absurdo:

“Mas apesar da luta dos trabalhadores e do esforço do PCP, a CGT, dominada pelos anarco-sindicalistas e em perda de influência, recusa a tentativa do Partido de criar uma frente de unidade contra o fascismo, que acaba por cair por terra”.

Acrescentam ainda que:

“No começo de 1924, o PCP, defendendo a necessidade de uma sólida unidade de acção dos trabalhadores perante o perigo que avançava, tenta estabelecer com a CGT uma frente de unidade sindical contra o fascismo. Chega a realizar-se uma reunião com esse fim, mas a tentativa falha devido às posições anticomunistas dos anarco-sindicalistas, que dominam a CGT. Em 1925 o Partido participa nas eleições parlamentares formando um bloco com as chamadas forças democráticas de esquerda.”

Ficam por esclarecer que posições anticomunistas teriam os anarcossindicalistas da CGT, tendo em conta que estes eram na sua esmagadora maioria, comunistas. Se os autores do texto se tivessem dado ao trabalho de ler as atas dos Congressos, quer da CGT, quer das Juventudes Sindicalistas, teriam descoberto que ambas as organizações tinham como objetivo a socialização dos meios de produção pelos próprios trabalhadores e o comunismo libertário. A CGT nunca recusou lutar com outras fações antifascistas, como veio a acontecer nos anos do reviralhismo com os republicanos e na greve de 18 de janeiro de 1934 com os socialistas e comunistas. Recusou apenas submeter-se à direção de um partido político que provocou uma cisão no movimento sindical ao fundar a ISV, enfraquecendo a unidade sindical que mais tarde acusam os anarcossindicalistas de sabotar. A CGT também nunca baixou as armas, continuando a organizar greves contra o fascismo, a publicar clandestinamente as edições do jornal A Batalha, a procurar organizar revoltas com os republicanos antifascistas que sempre recusaram fornecer armas aos operários e ao continuar as suas ações de propaganda e sindicalização de mais trabalhadores. A CGT já alertava para a ameaça do fascismo para a classe trabalhadora desde 1924, mas não tinha intenções de se unir a um PCP que investia no parlamentarismo e que tinha provocado a desordem na organização do operariado e das Juventudes Sindicalistas. De facto, esta é mais uma das heranças históricas do partido comunista que teima em guiar o proletariado por caminhos legalistas, reformistas e parlamentaristas. Tal como os camaradas da CGT a nossa conceção de sindicalismo revolucionário não se coaduna com as leis que o Estado burguês impõe aos sindicatos, vendo-se assim os mesmos forçados a enveredar por caminhos de “colaboração de classe”.

O texto continua, desta vez afirmando que:

“Em 1929, o PCP começa a organizar-se nas condições de clandestinidade que lhe são impostas. Bento Gonçalves, jovem operário do Arsenal, activista sindical, vai ter um papel decisivo no combate às concepções anarquistas, na ligação do Partido à classe operária, na sua transformação num partido de tipo leninista. Criam-se organizações partidárias e de massas, desenvolve-se uma diversificada imprensa clandestina. Multiplicam-se as lutas contra a exploração, a fome, o desemprego e o fascismo, desenvolve-se o movimento de solidariedade. No centro de todo este esforço está o PCP, que ganha definitivamente a confiança da classe operária, torna-se a sua força política dirigente e o partido fundamental da resistência antifascista.”

Na verdade, até ao final dos anos 30 a classe operária continuou a estar maioritariamente organizada na CGT e os anarquistas continuaram a ser a principal força antifascista em Portugal. O PCP não ganharia tal confiança da parte da classe trabalhadora até aos anos 40. Contudo, não nos espanta que um partido que foi desde cedo hostil e combativo para com a CGT antes de o ser com as tais “forças democráticas de esquerda” de que tanto se orgulham ter militado com, queira agora passados 100 anos apagar o papel dos anarcossindicalistas portugueses que de forma brava e combativa resistiram aos primeiros anos da ditadura recorrendo a todo e qualquer meio, e não se prendendo com impasses do foro legal.

Mais abaixo encontramos mais uma pérola revisionista, digna dos comportamentos de um qualquer fascista apelando à união do “povo lusitano”:

“Combatendo as tendências para a colaboração de classes e o anarco-sindicalismo, lutando incansavelmente pelas reivindicações económicas dos trabalhadores, o Partido procura activamente a unidade da classe operária. Entre os resultados desta intensa actividade contam-se a condução de greves e lutas contra o desemprego e a reorganização dos sindicatos mais importantes.”

A contradição entre procurar unidade da classe operária e combater o anarco-sindicalismo, criando a Intersindical que dividiu essa mesma classe operária, anteriormente unida na CGT. É particularmente hipócrita ver os mandatários da III Internacional e da ISV reclamarem por falta de unidade quando era sabido que a criação do PCP tinha sido uma tentativa de desunir o movimento operário português sob o pretexto de “posições corretas de classe” e de “combater os traidores de classe” antes de combater o fascismo. Não espanta que a CGT tenha perdido a sua influência e força já que, se por um lado se ia destruindo por dentro devido a cisões no movimento anarcossindicalista, que nós lembramos com pena, também tinha de lidar com ataques e tentativas de sabotagem de supostos camaradas. O texto avança, desta vez para um ponto que é provavelmente o mais engraçado tanto quanto hipócrita por parte daqueles que se dizem ser os herdeiros de Bento Gonçalves:

“A 18 de Janeiro de 1934 desenvolve-se em vários pontos do país uma greve de características insurrecionais. Tinha entrado em vigor o Estatuto do Trabalho Nacional (inspirado na Carta Del Lavoro de Mussolini), que decretava a ilegalização dos sindicatos livres. A classe operária reage de imediato. Estas manifestações e ações grevistas tiveram lugar um pouco por todo o país mas é na Marinha Grande que estas ações alcançam maiores proporções (34). A partir de 18 de Janeiro, o PCP afirmar-se-á definitivamente como o partido da classe operária, como o grande dinamizador da luta antifascista. Nota de rodapé – A greve, ainda influenciada pelo anarco-sindicalismo, desenvolve-se com características insurreccionais um pouco por todo o país, mas atinge maiores proporções na Marinha Grande.”

Apesar de o PCP hoje relembrar o 18 de janeiro de 1934 positivamente, não esquecemos que quando a CGT procurou unir os sindicatos e planear conjuntamente a greve, o PCP recusou participar na mesma. Bento Gonçalves afirma “«Colocámo-nos no terreno da utilização das condições legais. Qualquer forma de luta ilegal ainda aí nem sequer era frisada, nem mesmo subentendidamente. Dizíamos, em substância, que os sindicatos ainda se regiam pelo velho alvará. Era portanto necessário lutar sobre essa base. Convocar reuniões de assembleias gerais com o fim de levar os trabalhadores a votar contra o Estatuto do Trabalho Nacional. O que era preciso patentear bem alto e bem publicamente que os trabalhadores estavam contra a fascização dos Sindicatos, que continuavam a dispor do direito de organização independente» O Partido pretendia combater o fascismo pelo legalismo e so viria a aceitar participar na greve após a Intersindical o ter feito primeiro, contra a posição do PCP. No entanto, recusa-se a planear e coordenar as suas açoes com os outros sindicatos, impedindo a organização de uma frente unida. Bento Gonçalves viria a descrever a greve como sendo uma “anarqueirada”. Não querendo ignorar as culpas da CGT no falhanço da greve, o Partido Comunista tudo fez para a prejudicar. Explodiu uma bomba no dia 17 que alertou as autoridades, rejeitou planear a greve em conjunto e recusou adiar a greve, algo que a CGT tinha pedido visto não estarem totalmente preparados no dia 18.

Portanto, é na Marinha Grande, povoado com cerca de 9000 mil habitantes e 2000 mil operários vidreiros, que a greve atinge maiores proporções. Apesar de ter envolvido muito menos trabalhadores do que em outras localidades, tais como Silves e Almada onde os anarcossindicalistas eram hegemónicos. Apesar de so ter estado sob controlo dos trabalhadores durante cerca de 1 hora e de por volta das 9 da manha a greve ter sido completamente derrotada. A imprensa avança que apenas 200 trabalhadores teriam participado na greve, uma clara minoria, o que explicaria o baixo número de feridos e a rápida desistência dos grevistas. Os comunistas do PCP estavam de facto em maioria na Marinha Grande e só por isso se explica que o partido sobrevalorize o que lá se passou. Em contrapartida, e voltando aos exemplos de Silves e Almada, muitos mais trabalhadores foram movimentados pelos anarcossindicalistas. Milhares aderem à greve em Almada e esta mantém-se durante todo o dia 18 e parcialmente no dia 19. Em Silves, a greve foi também geral durante todo o dia 18 e parcial durantes os dias 19 e 20. Estes exemplos bastam para revelar a incapacidade do PCP mobilizar os trabalhadores e o verdadeiro impacto que a greve teve nas zonas de maior influência anarcossindicalista.

Por último, aquele que consideramos ser o mais desonesto, revisionista e uma clara falta de respeito para os milhares de homens e mulheres da CGT que resistiram ao fascismo na sua fase inicial dando a sua própria vida:

“De todos os partidos políticos existentes à data da instauração do fascismo, o Partido Comunista Português foi o único que soube resistir e forjar-se na luta. Nota de rodapé – Anarquistas e socialistas depuseram as armas e desapareceram de cena.”

Na nossa conceção da realidade este tipo de comentários mereceriam ser alvo de chacota não fosse o respeito que temos à memória histórica de todo e qualquer ser humano que tenha resistido ao fascismo através da luta armada ou sindical. Resta-nos ficar, mais uma vez, naquilo que se tem tornado repetitivo no desenvolver do Partido Comunista Português, estupefactos com a atitude estritamente tribal com que abordam o tema do fascismo em Portugal, a sua criação e institucionalização, em luta por uma hegemonia fictícia daquele que foi um movimento levado a cabo por anarcossindicalistas, comunistas, socialistas, republicanos e mesmo democratas. Não esquecemos as lutas internas dentro do movimento antifascista que permitiram à ditadura causar o caos na década de 30, muito por culpa daqueles que juravam a pés juntos representar a união da classe operária. Que um partido como o PCP ande ainda à deriva entre as suas heranças do tempo do stalinismo por um lado, e as heranças do eurocomunismo do PCF agora acenando a bandeira da democracia avançada não nos surpreende. O que nos surpreende é a facilidade e o desdém com que os seus militantes possam escrever esta quantidade insultuosa de revisionismo histórico, calúnias e lixo intelectual.

aqui: http://uniaolibertaria.pt/resposta-ao-revisionismo-historico-do-pcp/




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com