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Visão de Conjunto dos Fundamentos duma Nova Ética [1]


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Por Piötr Kropotkin

Obstáculos que se opõem ao progresso moral. – Desenvolvimento do instinto de comunidade. – Força inspiradora da Ética evolucionista. – Ideias e concepções morais. – O sentimento do dever. – Duas classes de ações morais. – Significado da atividade pessoal. – Necessidade da criação própria. – Ajuda mútua, Justiça e Moralidade, como fundamentos da Ética científica.

Se os filósofos empíricos, baseando-se nas ciências naturais, não conseguiram até agora provar a existência dum progresso contínuo das concepções morais (que pode ser considerado como o princípio fundamental da evolução) isso se deve à oposição tenaz com que tropeçaram por parte de filósofos especulativos, quer dizer, não científicos. Com tanta obstinação negavam estes últimos a origem empírica natural do senso moral, tanto empenho colocavam em atribuir ao senso moral uma origem sobrenatural e tanta era a profusão com que falavam da predestinação do homem, do objeto da vida, das finalidades da Natureza e da Criação que forçosamente tinham que provocar uma reação em sentido contrário. Os evolucionistas contemporâneos, depois de ter provado a existência da luta pela vida em várias espécies do mundo animal, não podiam admitir que um fenômeno tão cruel, que tantos sofrimentos causa entre os seres vivos, seja expressão da vontade do Ser Supremo e negaram, portanto, que nele residisse nenhum princípio ético. Tão somente agora, quando se começa a  considerar como resultado dum desenvolvimento natural a evolução sucessiva das espécies, bem como das raças e instituições humanas e ainda dos próprios princípios éticos, é possível estudar, sem cair na filosofia natural, os diversos fatores que contribuíram a dita evolução. Entre eles figura a ajuda e a compaixão mútuas, como forças morais naturais.

Mas sendo assim, é preciso reconhecer que chegamos a um momento de suma gravidade para a Filosofia. Porquanto temos o direito de chegar a uma conclusão e ela é que, a lição que o homem tira do estudo da natureza e de sua própria história, consiste em fazer com que veja a existência duma dupla aspiração: por um lado, a aspiração à comunidade, e por outro, a aspiração, que emana da primeira, a uma vida mais intensa. Por conseguinte, a uma maior felicidade do indivíduo e ao seu mais rápido progresso físico, intelectual e moral.

Essa dupla aspiração é o traço característico da vida em geral. Constitui uma das propriedades fundamentais da vida (um de seus atributos), seja qual for o aspecto que a vida assuma em nosso planeta ou fora dele. Não é nem uma confirmação metafísica da universalidade da lei moral, nem uma simples suposição. Sem um desenvolvimento constante da comunidade e, por conseguinte, da intensidade da vida e variedade de suas sensações, a vida mesma é impossível. Esses elementos constituem sua substância. Sem eles a vida caminha à desagregação e à extinção. É uma lei da natureza.

Resulta, portanto, que a ciência, longe de destruir as bases da Ética, lhe dá – em oposição às nebulosas afirmações metafísicas da Ética transcendental, ou seja, sobrenatural – um conteúdo concreto. E à medida que a ciência penetra mais profundamente na vida da natureza encontra para a Ética evolucionista uma certeza filosófica, enquanto os pensadores transcendentais poderiam tão só apoiar suas ideias em hipóteses flutuantes.

Escassa justificação tem, além do mais, uma censura que frequentemente se faz à Filosofia, baseada no estudo da natureza. Pretende-se que esta Filosofia possa nos conduzir apenas ao conhecimento duma verdade fria e matemática, sem influência, por ser tal, sobre a nossa conduta; que no melhor caso o estudo da natureza possa nos inspirar o amor à verdade, mas que a inspiração para as emoções superiores, como, por exemplo, a infinita bondade, possa nos dar apenas a Religião.

Não é difícil provar que semelhante afirmação carece completamente de fundamento e é, consequentemente, falsa. O amor à verdade já é por si só a metade – e a melhor metade – de toda doutrina moral. As pessoas religiosas inteligentes o compreendem muito bem. E quanto à aspiração ao bem, a verdade a qual se fez alusão mais acima, quer dizer, o reconhecimento da ajuda mútua como traço fundamental na existência de todos os seres vivos, é certamente uma verdade inspiradora que um dia haverá de encontrar sua expressão digna na poesia da natureza, porquanto acrescenta à concepção desta um novo traço humanitário. Goethe, com a penetração de seu gênio panteísta, compreendeu com um golpe toda a sua importância filosófica [2], ao ouvir dos lábios de Eckermann uma alusão a esta verdade.

À medida que adquirimos um conhecimento mais exato do homem primitivo, se fortalece nosso convencimento de que nos animais com os quais vivia em estreita comunidade encontrou o homem as primeiras lições de espírito de sacrifício para a defesa de seus semelhantes e o bem do seu grupo, de infinita afeição paternal e de reconhecimento da utilidade da vida em comum. Os conceitos de virtude e vício são concepções zoológicas e não somente humanas.

Não cabe, por outro lado, pôr em dúvida a influência das ideias e ideais sobre as concepções morais, nem tampouco a que estas exercem sobre a imagem intelectual de cada época. A evolução duma dada sociedade pode tomar, às vezes, uma direção completamente falsa sob a influência de circunstâncias externas: sede de enriquecimento, guerras, etc., ou, ao contrário, elevar-se a uma grande altura.  Mas em ambos casos, o nível intelectual da época influi sempre profundamente sobre o caráter das concepções morais, tanto da sociedade como dos indivíduos.

Fouillée disse, com evidente exatidão, que as ideias são forças. São forças morais quando são justas e suficientemente amplas para expressar a verdadeira vida da natureza em todo o seu conjunto e não apenas em um de seus aspectos. Portanto, o primeiro passo para a elaboração duma moral que possa ter sobre a sociedade uma influência duradoura consiste em assentá-la sobre verdades firmemente estabelecidas. Na verdade, um dos principais obstáculos para a elaboração dum sistema completo de Ética que corresponda às exigências contemporâneas reside no fato de que a Sociologia se encontra ainda em sua infância. A Sociologia reuniu até agora apenas os materiais necessários para os estudos encaminhados a determinar a direção provável da evolução subsequente da humanidade. Mas neste campo tropeça constantemente com uma série de preconceitos enraizados.

O que em primeiro plano se exige agora da Ética, é que encontra no estudo filosófico dos materiais já reunidos o que há de comum entre duas séries de sentimentos que existem no homem, facilitando assim, não uma transação ou compromisso, mas uma síntese, uma generalização. Destes sentimentos, uns impulsionam o homem a se submeter aos demais para satisfazer seus fins pessoais, enquanto que outros o impulsionam a se unir com os demais para alcançar conjuntamente certas finalidades. Os primeiros correspondem à necessidade fundamental de luta que sente o homem, ao passo que os segundos correspondem a uma necessidade também fundamental: a de união e compaixão mútuas. É natural que entre esses dois grupos de sentimentos se estabeleça um combate; por isso mesmo é absolutamente indispensável encontrar, seja como for, a síntese que os reúna. Esta necessidade é tanto mais urgente quanto que, carecendo o homem contemporâneo de normas fixas para se orientar nesse conflito, desperdiça em esforços inúteis  suas forças de ação. Não pode o homem acreditar que a luta sangrenta pela posse que tem lugar entre homens isolados e entre as nações seja a razão última da ciência, nem tampouco pode acreditar que a solução do problema se possa conseguir somente predicando a fraternidade e a resignação, como fez durante tantos séculos o cristianismo, sem jamais conseguir que reinasse a fraternidade entre os povos e os indivíduos, nem se quer a tolerância mútua entre as várias doutrinas cristãs. Iguais razões induzem à maioria da gente a não acreditar no comunismo.

Nós descobrimos, pois, que a tarefa principal da Ética consiste agora em ajudar o homem a resolver esta contradição fundamental. Para este fim, temos de estudar atentamente os meios dos quais se serviu o homem em várias épocas para obter o maior bem-estar geral, do conjunto dos esforços dos indivíduos isolados, sem que por isso se paralisasse a energia individual. Temos de estudar, além do mais, para chegar a essa síntese necessária, as tendências que se manifestam agora no mesmo sentido, seja como tentativas ainda vacilantes ou apenas como possibilidades ocultas no fundo da sociedade contemporânea. E já que nenhum novo movimento consegue abrir caminho se não logra despertar certo entusiasmo, necessário para vencer as resistências da rotina, a tarefa fundamental da nova Ética consistirá em inspirar ao homem ideais capazes de despertar nele a exaltação entusiasta e as forças indispensáveis para realizar a união entre a energia individual e o trabalho para o bem comum.

A necessidade de ter um ideal real nos obriga a examinar antes de tudo o argumento fundamental que se opõe a todos os sistemas de Ética não religiosa. Afirmar-se que todos eles carecem da autoridade necessária e não podem, por conseguinte, despertar o sentimento do dever, duma obrigação moral.

Certo é que a Ética empírica nunca pretendeu ter o caráter obrigatório próprio dos dez mandamentos de Moisés. Ao assentar como imperativo categórico de toda moral a regra: Aja de tal modo que possa sempre querer que a máxima de sua ação seja uma lei universal, pretendia provar Kant que esta regra, para ser reconhecida como universalmente obrigatória, não requer nenhuma confirmação suprema. Esta regra – afirmava Kant – constitui uma forma necessária do pensamento, uma categoria da nossa razão e não tem sua origem em considerações utilitárias.

A crítica contemporânea, começando por Schopenhauer, mostrou, entretanto, que Kant não estava certo. Não explicou Kant porquê o homem se encontrava submetido à lei de seu imperativo, e é curioso que, dos argumentos do filósofo, segue que a única razão para o reconhecimento universal de sua lei reside precisamente na utilidade social da mesma. E, contudo, as melhores páginas de Kant são aquelas em que demonstra como em nenhum caso as considerações utilitárias considerar-se-ão como base de moral. Na realidade, Kant escreveu um elogio sublime do senso do dever, mas sem encontrar para este outra base que a consciência íntima do homem e o desejo vivo neste de conservar a harmonia entre suas concepções intelectuais e sua conduta[3].

A Ética empírica não pretende se opor aos mandamentos religiosos com seus conceitos do dever como obrigação. É preciso reconhecer que, por outro lado, a moral empírica não está totalmente desprovida dum certo caráter de compulsão. A série de sentimentos e feitos que desde Augusto Comte se chamam altruístas pode se dividir em duas classes. Há feitos que são incondicionalmente necessários para viver em sociedade, que não cabe qualificar de altruístas. Têm caráter de reciprocidade e o interesse próprio joga neles um papel tão importante como num ato de conservação. Mas, ao lado dos feitos mencionados, há outros que absolutamente carecem do caráter de reciprocidade. Quem os realiza dá suas forças, seu entusiasmo, sem esperar nada em troca, nem remuneração ou recompensa alguma; e embora precisamente esses feitos sejam os fatores primordiais da perfeição moral, é impossível qualificá-los como obrigatórios. É comum, no entanto, que os tratadistas confundam estas duas ordens de feitos e nelas resida a explicação das numerosas contradições que aparecem no tratamento dos problemas éticos.

Mas, na realidade, não é difícil eliminar essa confusão. Em primeiro lugar, não há necessidade de confundir os problemas da Ética com os do Direito. A moral não resolve o problema de saber se a legislação é necessária ou não. Seu plano é superior. São muitos, na verdade, os tratadistas que, negando a necessidade de todo Direito, apelavam diretamente à consciência humana; no primeiro período da Reforma estes tratadistas exerceram uma influência nada depreciável. Em sua essência, a missão da Ética não consiste em insistir sobre os defeitos do homem e em censurar os seus pecados, mas em atuar num sentido positivo, apelando aos melhores instintos humanos. É preciso determinar e explicar os princípios fundamentais sem os quais nem o homem nem os animais poderiam viver em sociedade. Apela, ao mesmo tempo, a razões superiores: ao amor, ao valor, à fraternidade, ao respeito por si mesmo, à vida de acordo com o ideal. Finalmente, é preciso indicar ao homem que, se quer viver uma vida na qual todas as suas forças possam ser utilizadas de maneira íntegra, é necessário que renuncie de uma vez à ideia de que é possível viver sem levar em conta as necessidades e os desejos dos demais.

Apenas sob a condição de que exista uma certa harmonia entre o indivíduo e o mundo em volta, é possível se aproximar a semelhante ideal de vida – diz a Ética. E em seguida acrescenta: fixai-os na natureza; estudai o passado do gênero humano e vereis como isto é certo. Portanto, quando o homem, por uma razão qualquer, hesita sobre o que tem que fazer num caso dado, a Ética vem em sua ajuda e lhe diz que tem que fazer o que num caso análogo desejaria que fizessem com ele[4]. Mas nem mesmo neste caso a Ética pode ditar ao homem uma linha rigorosa de conduta e se vê obrigada a considerar e pesar por conta própria as várias alternativas que lhe são apresentadas. É inútil, por exemplo, aconselhar algo que signifique um risco a um homem incapaz de suportar um fracasso; igualmente inútil é aconselhar a um jovem cheio de energias a prudência dum ancião: responderia a este conselho com as palavras profundamente justas e belas de Egmont ao conde Olivier no drama de Goethe. E razão teria para fazê-lo. Empurrados por espíritos invisíveis, os cavalos de fogo do tempo correm velozes, arrastando a carruagem leve de nosso destino; só temos que segurar bravamente as rédeas e cuidar para que o carro não bata para a direita contra uma rocha ou caia para a esquerda em um penhasco. Para onde vamos? Quem sabe! É que nem nos lembramos de onde viemos? A flor há de florescer, ainda que lhe custe a vida, disse Guyau em sua obra Crítica da ideia de sanção.

E, todavia, não consiste a tarefa fundamental da Ética em repartir a cada qual os conselhos correspondentes. Sua finalidade é mais parecida com a de dar um Ideal aos homens em conjunto, que sirva a estes instintivamente melhor que qualquer conselho, para guiá-los na ação. Assim como o exercício intelectual nos acostuma a obter quase inconscientemente toda uma série de conclusões importantes, assim também deve consistir a tarefa da Ética em criar na sociedade uma atmosfera tal em que se realizem quase impulsivamente, sem hesitações, todas aquelas ações que conduzem ao bem-estar da comunidade e à maior felicidade possível de cada um.

Tal é a finalidade última da moral. Mas para alcançá-la, é preciso emancipar nossas doutrinas morais de suas contradições internas. Assim, por exemplo, a moral que predica o exercício do bem por misericórdia e piedade carrega dentro de si uma mortal contradição. Começa afirmando o princípio de justiça universal, quer dizer, a igualdade ou fraternidade absoluta, para declarar imediatamente depois que não a pena aspirar a esses ideais porque a igualdade é inacessível e a fraternidade, que constitui a base de todas as religiões, não deve ser concebida em sentido literal, mas tão só como uma expressão poética de pregadores entusiastas. A desigualdade é uma lei da natureza – nos dizem os propagandistas religiosos, desta vez lembrando-se da natureza e se apoiando nela. A respeito disto, nos aconselham que sigamos as lições da natureza e não da Religião que tem criticado a natureza. Mas quando a desigualdade na vida dos homens se torna bastante ostensiva e as riquezas produzidas se repartem com tanta injustiça que a maioria das pessoas se veem obrigadas a viver na mais sombria miséria, proclama-se, então, o dever sagrado de compartilhar com os pobres o que se pode, sem necessidade de que por conta disso os privilegiados percam tais posições.

Uma moral semelhante pode se manter durante certo tempo – e ainda durante muito tempo – sob condição de estar sustentada pela Religião. Mas quando o homem começa a examinar a Religião a partir dum ponto de vista crítico e, em vez da obediência e do temor cegos, busca convicções confirmadas pela razão, esta contradição interna não pode se manter por longo tempo. É preciso despedir-se dela o quanto antes. A contradição interna é uma sentença de morte para toda Ética, um verme que corrói a energia do homem.

Todas as teorias morais modernas devem preencher uma condição fundamental. Abster-se-ão de acorrentar a atividade do indivíduo, ainda seja sob o pretexto de alcançar uma finalidade tão elevada como o bem da comunidade ou da espécie. Em seu admirável estudo dos sistemas éticos, disse Wundt que, desde o período enciclopedista até meados do século XVIII, quase todos os sistemas éticos assumem um caráter individualista. Mas esta observação só é justa até certo ponto, posto que os direitos do indivíduo eram afirmados energicamente só no terreno econômico. Mas também neste campo a liberdade individual, tanto na prática como na teoria, era mais uma aparência que uma realidade. Nos demais campos, político, intelectual, estético, pode-se dizer que, à medida que se tornava mais vigorosa a afirmação do individualismo econômico, crescia também a submissão do indivíduo à organização Militar do Estado e ao seu sistema de instrução, ao mesmo tempo que se reforçava a disciplina necessária para a manutenção das instituições existentes. Mesmo a maioria dos reformadores mais avançados dos nossos dias, em suas previsões sobre a sociedade futura, acreditam numa absorção, maior entretanto que a atual, do indivíduo pela sociedade.

Uma tendência semelhante não poderia deixar de provocar a consequente reação. Godwin, no começo do século XIX, e Spencer, na segunda metade do mesmo, deram expressão a este protesto, e Nietzsche chegou a afirmar que mais valia lançar mão de todas as teorias morais se estas não podem encontrar outra base que o sacrifício do indivíduo aos interesses da Humanidade. Esta crítica das ideias morais em voga, é, talvez, o traço mais característico da nossa época, sobretudo se leva-se em conta que seu motivo principal, mais que na aspiração estritamente egoísta à independência econômica (como era o caso no século XVIII de todos os defensores dos direitos do indivíduo, com exceção de Godwin), reside num desejo apaixonado de independência individual para contribuir na formação duma sociedade nova e melhor, na qual o bem-estar de todos seria a base do completo desenvolvimento da personalidade humana[5].

O escasso desenvolvimento do indivíduo e a carência de força criadora pessoal e de iniciativa constituem, sem dúvida, um dos principais defeitos da nossa época. O individualismo econômico não cumpriu suas promessas: não determinou o desenvolvimento intenso da personalidade. Como na antiguidade, a criação das formas sociais continua se manifestando com extrema lentidão e a imitação permanece sendo o principal meio para a propagação das inovações. As nações contemporâneas repetem a história das tribos bárbaras e das cidades medievais, comunicando-se umas com as outras os movimentos políticos, sociais, religiosos e econômicos e as constituições. Nações inteiras se apropriaram nos últimos tempos, com rapidez assombrosa, da civilização industrial e da organização Militar da Europa. E nestas mesmas versões dos velhos modelos se pode apreciar claramente até que ponto o que chamamos civilização tem um caráter superficial e está formado por simples processos imitativos.

É natural, portanto, que se faça esta pergunta: não contribuem as doutrinas morais atuais para estender essa submissão imitativa? Não quiseram fazer do homem o autômato intelectual de que nos fala Herbart, absorvido na contemplação e temerosos, sobretudo, das tempestades passionais? Já não teria chegado o tempo de defender os direitos do homem vivo, cheio de energias, capaz de amar o que vale a pena ser amado e de odiar o que merece ódio, dum homem sempre disposto a lutar pelo ideal que exalta seus amores e justifica suas antipatias? Desde os filósofos da Antiguidade sempre existiu a tendência a pintar a virtude como um espécie de sabedoria que mais exorta o homem a cuidar da beleza da sua alma do que a lutar contra os males de sua época. Mas tarde se deu o nome de virtude à não resistência ao mal. E durante muitos séculos a salvação pessoal, junto com a submissão ao destino e à indiferença perante o mal, constituíram a essência da Ética cristã. Daí surgia uma série de refinados argumentos a favor do individualismo virtuoso, e a glorificação da indiferença monástica diante do mal social. Infelizmente, já se inicia a reação contra uma virtude tão egoísta e se levanta o problema de saber se a indiferença perante o mal não é uma covardia criminosa. Não tem razão o Zendavestá ao afirmar que a luta ativa contra Arimã, encarnação do mal, é a primeira condição da virtude?[6] O progresso moral é necessário, mas sem o valor moral se torna impossível.

Tais são as exigências que a moral satisfará. Todas elas convergem numa só ideia fundamental. É preciso elaborar uma nova doutrina moral, cujos princípios fundamentais sejam bastante amplos para dar nova vida a nossa civilização, emancipada em suas aplicações práticas tanto das sobrevivências do pensamento transcendental e sobrenatural como das concepções estreitas do utilitarismo burguês.

Já existem os elementos para uma nova concepção da moral. A importância da sociabilidade e da ajuda mútua na evolução do mundo animal e na história do homem pode, ao meu ver, ser aceita como uma verdade científica estabelecida e livre de hipótese.

Além do mais, podemos admitir que, à medida que a ajuda mútua se converte num costume estabelecido na sociedade humana e se exerce, por assim dizer, instintivamente, sua própria prática conduz ao desenvolvimento do senso de justiça, inevitavelmente acompanhado pelo senso de igualdade. À medida que vão desaparecendo as diferenças de classe, abre caminho a ideia de que os direitos dum indivíduo determinado são tão invioláveis quanto os de qualquer outro. No processo de transformação social esta idea assumirá um aspecto a cada vez mais amplo.

Já nos primórdios da vida social existiu naturalmente, em certa medida, a identificação entre os interesses do indivíduo e os de seu grupo, e da mesma forma a encontramos entre os animais inferiores. Mas, à medida que se enraízam as relações de igualdade e de justiça nas sociedades humanas, vai se preparando o terreno para o refinamento das mesmas. Graças a elas o homem se acostuma a descobrir o reflexo de sua conduta na sociedade inteira, a tal ponto que chega a se abster de perturbar os demais renunciando à satisfação dum apetite ou dum desejo. E a tal ponto chega a identificar seus sentimentos com os dos demais, que se encontra disposto a sacrificar suas forças para o bem de seus semelhantes sem espera de recompensa. Só estes sentimentos e hábitos, qualificados comumente com os nomes pouco exatos de altruísmo e espírito de sacrifício, são os que, acredito eu, correspondem propriamente ao domínio da moral, mesmo quando a maioria dos escritores, sob a denominação de altruísmo, os agrupam junto ao sentimento de justiça.

Ajuda mútua, Justiça, Moralidade:  tais são as etapas subsequentes que observamos ao estudar o mundo animal e o homem. Constituem uma necessidade orgânica que porta sua justificativa em si mesma e que vemos confirmada em todo o reino animal, começando pelas suas camadas inferiores em forma de colônias de organismos primitivos e se elevando até as sociedades humanas mais avançadas. Nos encontramos, portanto, diante duma lei universal da evolução orgânica. Os sentimentos de Ajuda Mútua, de Justiça e de Moralidade estão enraizados profundamente no homem, com toda a força dos instintos. O primeiro deles – o instinto da ajuda mútua – aparece como o mais forte, enquanto que o último, desenvolvido em última análise, se caracteriza por sua debilidade e seu caráter menos universal.

Assim como a necessidade de alimentação, abrigo e sono, estes instintos são de autopreservação. Sob a influência que circunstâncias determinadas podem enfraquecer e abundam os casos em que esse enfraquecimento ocorreu, seja em espécies animais ou em sociedades humanas. Mas as espécies ou sociedades em que este fenômeno se produz estão condenadas a decair e a fracassar na luta pela existência. Se não se opera um retorno às condições necessárias para a sua autopreservação e desenvolvimento progressivos, quer dizer, à Ajuda Mútua, à Justiça e à Moralidade, o grupo afetado – povo ou espécie – morre aos poucos e desaparece. Quando deixa de cumprir a condição essencial para o desenvolvimento progressivo, encontra-se condenado fatalmente à decadência e ao desaparecimento.

Tal é a base firme que nos dá a ciência para a elaboração dum novo sistema de Ética e para sua justificativa. Em vez de proclamar a falência da ciência, nos é apresentado, portanto, o problema de elaborar uma Ética científica com os elementos que nos proporcionam as investigações contemporâneas sobre a teoria da evolução.

Traduzido por Inaê Diana Ashokasundari Shravya

Imagem: Rubem Valentim

NOTAS

[1] Capítulo extraído de KROPOTKIN, Piotr. Ética. Origen y evolución de la moral. [S.I.]: Ediciones Antorcha, 2018.

[2] Ver Eckermann, Conversaciones con Goethe (na Colección Universal,  Calpe, Madrid). Ao lhe contar Eckermann que um passarinho, cuja mãe foi morta pelo próprio Eckermann, depois de cair do ninho foi acolhido por uma mãe de outra espécie. Goethe disse emocionado:  Isto é, sem dúvida, algo divino que me produz um espanto alegre. Se este feito de alimentar a um estranho fosse uma lei geral da Natureza, ficariam decifrados muitos enigmas e poderia-se dizer com razão que Deus cuida dos passarinhos abandonados. Os zoólogos do início do século XIX, entre eles o célebre naturalista Brehm, que estudavam a vida dos animais no continente americano, em partes ainda despovoadas, confirmaram que o feito contado por Eckermann é extremamente frequente no mundo animal.

[3] Posteriormente Kant foi ainda mais além. Da sua Religião nos limites da simples razão, editada em 1792, segue-se que, depois de começar opondo a Ética racionalista às doutrinas anticristãs da época, acabou reconhecendo o caráter inconcebível da capacidade moral, indicadora de sua origem divina. (Obras de Kant. Edición Hartenstein, t. VI, págs. 143 -44).

[4] A Ética não lhe dirá: isto deves fazer, senão que investigará com ele: o que queres, tua própria e finalmente, e não só de bom ou mau humor. (Federico Paulsen, Sistema de Ética, 2 tomos, Stuttgart e Berlim, 1913, t.I. pág. 28).

[5] Wundt faz uma observação curiosa: Se não nos enganamos – diz – se opera agora na opinião pública uma revolução: ao individualismo extremo da época enciclopedista sucede um renascimento do universalismo dos antigos pensadores, completado pela noção da liberdade da personalidade individual. É este um progresso que devemos ao individualismo. (Ética, pág. 459 da edição alemã).

[6] C. P. Thile, Historia de la Religión en la antigüedad. (Edición alemana, Gotha, 1903. T.II. pág. 163 e seguintes)




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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