Março 31, 2021
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

O coletivo do Passa Palavra, entendendo ser necessário promover um debate o mais amplo e plural possível sobre o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e a possibilidade de que volte a disputar a Presidência da República, decidiu pedir a alguns de seus colaboradores frequentes que escrevessem textos sobre o assunto. Esperamos que esses textos e o debate por eles suscitado possam estimular a reflexão em torno dos desafios com que depara a esquerda no momento.

A libertação do ex-presidente Lula e as alterações provocadas na política brasileira permitem traçar um interessante panorama da esquerda.

Durante os anos da ascensão de Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT) era frequente ouvir na extrema-esquerda vozes — depois cada vez mais raras — acusando Lula de ter traído os interesses dos trabalhadores e estar apenas preocupado em conciliar com os capitalistas. Esse ingénuo espanto serve mais para classificar a extrema-esquerda do que para classificar Lula. Os dirigentes sindicais são gestores como quaisquer outros, administram um aparelho burocrático com grandes interesses económicos. Escrevi suficientemente sobre os investimentos capitalistas dos sindicatos em todo o mundo, por isso parece-me desnecessário regressar aqui ao tema. O Brasil não é uma excepção e os sindicatos brasileiros, seja qual for a cor e a sigla, procedem a investimentos, cujos lucros podem servir para financiar os aparelhos partidários a que estão ligados. Basta isto para os dirigentes sindicais se identificarem com a restante classe dos gestores. Por que haveria Lula de ser uma excepção?

Foi precisamente esta identificação de interesses que permitiu ao PT organizar governos com uma base social sem precedentes, mobilizando desde o apoio de grandes capitalistas até à devoção dos movimentos sociais. O facto de esta convergência ter durado uma década e meia, em vez de suscitar antagonismos, pelo contrário, só serviu para consolidá-la, e pudemos assistir ao espectáculo de o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) apoiar uma experiência que se iniciou com Roberto Rodrigues, personalidade intimamente ligada ao agronegócio, como ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no primeiro governo de Lula, de 2003 até 2006, e continuar a apoiá-la no último governo de Dilma Rousseff, com a fazendeira Kátia Abreu, líder dos agropecuaristas, à frente desse mesmo Ministério. É que o MST tinha já encetado o caminho que depressa o converteu numa empresa capitalista, como o Passa Palavra e eu próprio abundantemente analisámos. Lula foi um mestre na conjugação de uma variedade de interesses particulares no interesse global de uma classe de gestores cada vez mais unificada.

Que o capitalismo brasileiro, considerado na sua totalidade, não conseguisse entender a importância da convergência social levada a cabo pelos governos do PT e provocasse o impeachment de Dilma Rousseff, isso mostra a imaturidade e o provincianismo de uma boa parte dos capitalistas deste país, mais interessados em pequenos negócios imediatos do que em grandes perspectivas. E que a extrema-esquerda com pretensões de anticapitalismo confundisse essa manobra política com um golpe contra-revolucionário, isso mostra até que ponto substituiu a análise da realidade social pelas confusões de linguagem. E assim o PT e o seu chefe Lula restauraram em todo o leque político as imerecidas credenciais de esquerda — e nem sequer de esquerda com aspas, porque juram agora que se trata de esquerda mesmo.

Quero eu dizer, então, que Lula é um dirigente político como qualquer outro? De modo nenhum.

Logo de começo, deveu-se a Lula e ao PT uma mudança colossal no panorama político brasileiro — liquidaram as esperanças políticas de Leonel Brizola e, com elas, a herança de Getúlio Vargas. Parecia, então, que a esquerda brasileira iria entrar definitivamente na modernidade, iria entender que o desenvolvimentismo não cabia mais nas fronteiras nacionais e só poderia prosseguir mediante o processo de transnacionalização, que o populismo estava ultrapassado enquanto mecanismo de mobilização popular e que a classe trabalhadora actual só era susceptível de outras formas de enquadramento. Foi uma enorme mudança nas perspectivas do capitalismo, que, por sua vez, obrigaria a esquerda anticapitalista a repensar análises, estratégia e formas de actuação.

Ao mesmo tempo, porém, foi-se revelando de maneira cada vez mais nítida a táctica empregue por Lula no âmbito restrito dos seus seguidores, e que consiste em criar uma clareira em seu redor. O PT, quando foi fundado, contava com um bom número de pessoas de grande qualidade política e elevado nível mental, e na Central Única dos Trabalhadores (CUT) a tendência Articulação dispunha de uma plêiade de sindicalistas que podiam competir com Lula em competência de gestão. E, no entanto, uma a uma todas essas pessoas desapareceram. Lula conseguiu eliminá-las, queimá-las, afastá-las. Lula revelou, assim, um dos mais graves defeitos num político do capitalismo — a incapacidade de consolidar a sua posição partidária através do consenso. Em vez de se afirmar como um primus inter pares, tornou-se um primus sine pares, não um primeiro entre iguais, mas um primeiro sem iguais.

A extrema-esquerda devia agradecer à Operação Lava Jato ter-lhe mostrado uma coisa — a degenerescência dos governantes e políticos do PT. O sistema de delações premiadas exibiu, com uma única excepção, um lamentável espectáculo de salve-se quem puder em que a cobardia e o oportunismo ficaram expostos aos olhos de todos. Para se escaparem na justiça liquidaram-se na política. E assim a Operação Lava Jato contribuiu para revigorar a táctica de Lula, ajudando-o a aumentar o deserto em seu redor.

É este o panorama actual. A extrema-esquerda não pode apoiar-se em nenhum movimento social que não esteja intimamente ligado ao lulismo, nem pode apresentar nenhum nome que não seja o do próprio Lula. Completou-se o círculo. Lula, que iniciou o seu destaque na política liquidando Brizola e os restos do getulismo, converteu-se afinal numa reencarnação serôdia do caudilhismo latino-americano.

Neste trajecto não é Lula que me preocupa. É a extrema-esquerda, que não tem agora outro horizonte senão o lulalá.

Este artigo está ilustrado com fotografias de Cayetano Ferrández (1963 –      ).




Fonte: Passapalavra.info