Setembro 5, 2020
Do ITHA-IATH
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Como o marxismo e o socialismo de Estado em geral se tornaram cada vez mais desacreditados, tem aparecido uma tendência na esquerda que busca se voltar para outra tradição, a da revolução democrática. A democracia pode ser encarada como uma base de oposição aos autoritarismos da sociedade capitalista (Morrison, 1995; Mouffe, 1992; Trend, 1996; Wood, 1995). Uma obra influente concluiu: “A tarefa da esquerda, portanto, não pode ser renunciar à ideologia da democracia liberal, mas, pelo contrário, aprofundá-la e expandi-la na direção de uma democracia radical e plural (…) [Socialismo] é um dos componentes de um projeto de democracia radical, e não vice-versa ”(Laclau e Mouffe, 1985, pp. 176, 178).

“Democracia” tem dois significados contraditórios hoje: a legitimação do Estado existente versus uma tradição de libertação popular e revolucionária. Ela é o suporte ideológico dos Estados “democráticos” existentes no Ocidente e em outros lugares – justamente devido aos ideais democráticos serem tão atraentes. Eleições periódicas e liberdade (relativa) de expressão e associação são usadas para justificar uma sociedade em que poucos realmente governam a maioria. A democracia capitalista é usada por facções concorrentes de governantes para resolver suas disputas sem (muito) derramamento de sangue. Serve para cooptar forças populares rebeldes.

Mas a democracia é também o grito dos oprimidos contra as elites dominantes – a ideia de que as pessoas comuns devem participar e controlar as instituições que constituem sua sociedade. Essa ideia de democracia remonta aos conselhos tribais, à Atenas clássica, às grandes revoluções burguesas da Inglaterra, dos EUA e da França, aos abolicionistas norte americanos e, atualmente, aos ideais amados por milhões. São direitos arrancados dos governantes pela luta e pelo sangue do povo. É o ponto de partida para julgar o Estado – e para condená-lo. Como tal, pode ainda não ter perdido seu potencial revolucionário.

Este desenvolvimento teórico é interessante para aqueles de nós que não veem o anarquismo socialista como outra coisa que não a democracia mais extrema, consistente e completa. Escritores como Paul Goodman (1965) e Noam Chomsky (1994), reivindicaram suas versões do anarquismo como extensões da tradição democrática de Jefferson a John Dewey. Benjamin Tucker, o anarquista americano do século XIX, escreveu: “Os anarquistas são simplesmente democratas jeffersonianos não assustados” (1888; p. 11). O anarquista contemporâneo Murray Bookchin escreve: “(…) uma sociedade livre será democrática ou não será alcançada de forma alguma” (1995; p. 17).

No entanto, a relação histórica entre anarquismo e democracia é altamente ambígua. Isso não deveria ser surpreendente, considerando como ambos os termos tem sido vagos e amplos. Como “socialismo” ou “liberdade”, eles significaram muitas coisas diferentes para muitas pessoas diferentes.

Em “O que é a propriedade?”, o primeiro trabalho a reivindicar o termo “anarquista”, Pierre Joseph Proudhon explicitamente se contrapôs ao rótulo “democrata”: “Eu ouço alguns de meus leitores responderem: (…) ‘Você é um democrata.’ Não (…) ‘Então o que você é?’ Eu sou um anarquista” (citado em Woodcock, 1962, p. 12). Mas, anos depois, Proudhon defendeu a substituição do Estado por uma democracia de associações voluntárias de produtores, “uma vasta federação de associações e grupos unidos pelo vínculo comum da república democrática e social” (citado em Guerin, 1970; p. 45).

O anarquismo pode oferecer uma perspectiva única sobre os dois significados da democracia. Os liberais e os social-democratas acreditam na democracia e podem se autodenominar “socialistas democráticos”. Mas, embora sejam altamente críticos de aspectos do sistema, acabam sucumbindo ao aspecto mistificador da teoria democrática. Eles aceitam o Estado existente como antidemocrático, mas esperam modificá-lo, para torná-lo “ainda mais democrático”. Por outro lado, revolucionários autoritários – stalinistas, nacionalistas radicais, etc. – não caem nas ilusões democráticas do imperialismo norte-americano. Mas eles pretendem substituir este Estado por um novo Estado, no qual eles são os novos governantes. Eles rejeitam o ideal de autogestão popular.

Os anarquistas, entretanto, podem rejeitar a alegação de que os Estados existentes devem ser apoiados por serem democráticos, enquanto continuam a defender a democracia com uma perspectiva libertadora. Mas para isso, anarquismo e democracia devem ser aceitos como compatíveis. Para esclarecer esta questão, discutirei primeiro uma crítica ao anarquismo do ponto de vista da democracia e, em seguida, uma crítica à democracia do ponto de vista do anarquismo.

ANTI-ANARQUISMO DEMOCRÁTICO

Democracy and Its Critics (1989), de Robert Dahl, é uma importante declaração em defesa da democracia, escrita de forma clara e bem pensada. Antes de adentrar em seu argumento, Dahl discute duas “objeções” fundamentais à democracia, a saber, anarquismo e “tutela”. Ele define o anarquismo, com bastante justiça, como “uma sociedade que consiste apenas em associações puramente voluntárias, uma sociedade sem o Estado” (p. 37). Ele rapidamente acrescenta: “Como a democracia pode muito bem ser o processo mais desejável para governar essas associações, também pode ser a forma predominante de governo em uma sociedade anarquista” (p. 37). Isso deixa evidente que o anarquismo não se opõe à democracia, mas ao “Estado democrático”.

Infelizmente, ele não explica o que entende por “Estado”. “Não proponho definir o termo ‘Estado’ rigorosamente” (p. 359). Ele o usa, aparentemente, para significar “o principal meio de coerção organizada” (p. 43, ver também p. 359).

Dahl prossegue argumentando que alguma coerção é necessária e que os anarquistas estão errados em se opor de maneira absoluta a toda coerção social. O objetivo deve ser “(…) minimizar a coerção e maximizar o consentimento” (p. 51). Essencialmente, concordo com seu argumento. Independente de como será após séculos de liberdade anarquista, uma sociedade recém-anarquista precisará de alguma forma controlar indivíduos assassinos e psicopatas bem como violentos contrarrevolucionários organizados. No entanto, Dahl parece assumir que coerção é sinônimo de Estado. Ele admite que povos pré-letrados, como os inuítes (esquimós), viveram satisfatoriamente por séculos ou milênios sem Estados, mas não considera como eles lidaram com a necessidade social de coerção. Eles tiveram coerção, seja pela opinião pública ou violência organizada – todo homem, pelo menos, estava armado e organizado pelo conselho tribal. O que eles não tinham era um Estado.

Kropotkin definiu o Estado: “A ideia de Estado (…) implica a existência de um poder situado acima da sociedade (…) a concentração nas mãos de alguns poucos das muitas funções vitais da sociedade (…) Todo um mecanismo de legislação e de policiamento é desenvolvido com a finalidade de submeter algumas classes ao domínio de outras” (1993; p. 160). Ideias comparáveis foram expressas por Engels: “Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela, e dela se distanciando cada vez mais, é o Estado (…) Compreende não só homens armados, como também elementos materiais, prisões e instituições coercivas de toda espécie… ”(citado por Lenin, 1970; pp. 290, 292).

O argumento dos anarquistas não é que seja possível abolir imediatamente toda coerção (embora alguns possam ter colocado isso dessa forma). É o de que é possível abolir a instituição burocrática e socialmente alienada do Estado. O “Estado democrático” deve ser condenado, não porque ainda seja coercitivo, mas porque não pode ser verdadeiramente democrático. Por sua própria natureza, este instrumento de coerção que está acima e contra a sociedade deve servir a uma minoria dominante contra uma maioria oprimida.

Dahl não trata desse assunto diretamente, mas dialoga com ele em um ponto importante de seu livro. A sociedade moderna, afirma, é muito grande e complexa para se basear na democracia direta face a face das tribos pré-letradas ou, posteriormente, das cidades-estado. Para que a democracia pudesse existir em grande escala, ela precisava da “invenção” da representação. Apenas um governo representativo (consequentemente, um Estado) poderia ter trazido a democracia para o mundo moderno, argumenta.

Mas isso tem dois lados. A representação tornou possível uma espécie de democracia em grande escala nas nações modernas, mas essa grande escala também tornou possível criar uma forma de governo de elite que continuaria a ser chamado de democracia. Em vez de democracia participativa direta, temos uma camada de políticos eleitos e burocratas do governo que se interpõem entre o povo e a efetiva tomada de decisões. De vez em quando, os cidadãos passivos elegem esses “representantes” para serem políticos em nome deles. Wood (1995) cita as opiniões de figuras importantes entre os Pais Fundadores, “O argumento deles não era que a representação é necessária em uma grande república, mas, ao contrário, que uma grande república é desejável para que a representação seja inevitável (…) A representação (…) pretende agir como um filtro” (p. 216).

Sem dúvida, algum grau de representação ou delegação, de órgãos inferiores para superiores, é necessário. Como federalistas, os anarquistas geralmente concordam com isso. Mas o significado da representação, e todos os outros aspectos da democracia, mudariam drasticamente em um contexto social diferente. As mudanças propostas pelos anarquistas na sociedade podem ser resumidas em dois conceitos:

Em primeiro lugar, a criação de uma sociedade igualitária em que grupos separados de opressores e oprimidos não existam mais (capitalistas e trabalhadores) ou redefinam suas relações como iguais (homens e mulheres, europeus-americanos e africanos-americanos, norte-americanos e latino-americanos). Onde a riqueza é uniformemente distribuída e não existe opressão, a sociedade não é mais puxada em direções diferentes por forças concorrentes e hostis. Não é necessário um Estado para manter as coisas juntas; é mais fácil maximizar o consentimento e minimizar a coerção.

Em segundo lugar (e aqui a maioria dos marxistas discorda), os anarquistas querem uma sociedade baseada na democracia direta por meio de assembleias populares – no local de trabalho, na comunidade e em muitas associações voluntárias. Quanto mais decisões são tomadas localmente, menos são tomadas centralmente. Quanto mais as pessoas experimentam a democracia face a face como um estilo de vida diário vibrante, mais elas realmente controlarão quaisquer representantes enviados às assembleias por delegação. A polícia e o exército seriam substituídos por uma milícia – o povo armado. “Se todo o povo fosse verdadeiramente soberano, não haveria mais governo nem governado (…) o Estado (…) seria idêntico à sociedade e desapareceria na organização industrial (dentre outras)” (Guerin, 1970; p. 17).

Dahl está ciente desses argumentos e concorda com eles até certo ponto. Ele procura diminuir as desigualdades sociais e políticas. Ele defende um grande aumento da participação e da tomada de decisões no nível da comunidade local. Ele apoia um socialismo democrático onde a economia é de propriedade e regulamentação social, mas as empresas competem entre si. Ao contrário da maioria dos defensores do “socialismo de mercado”, ele defende que as empresas sejam administradas democraticamente por seus empregados, como as cooperativas de produtores ou o antigo sistema iugoslavo. “…Seria um erro subestimar a importância das instituições autoritárias na vida cotidiana dos trabalhadores e as consequências da introdução de um sistema mais democrático na gestão das empresas econômicas” (p. 332).

No entanto, ele subestima as consequências de tal democratização descentralizada nas instituições mais centralizadas, nacionais e internacionais da sociedade. Ele descarta a ideia de uma transformação drástica da sociedade levantada por marxistas ou anarquistas. O próprio “socialismo de mercado” sugere que, mesmo sob o “socialismo”, a economia não será gerida em geral por decisões democráticas, mas pelo mercado. Embora concorde que nossa sociedade é altamente desigual, ele nega que haja um governo de minoria (pois há elites concorrentes). Essa sociedade – que ele chama de “poliarquia” – é imperfeita, mas ele argumenta que ainda é democrática e digna de apoio. Na prática, senão na intenção, ele é um daqueles que aceitam o papel da democracia como justificativa do Estado capitalista patriarcal existente.

Parte do problema é que, sempre que Dahl apoia a teoria referindo-se à prática, ele sempre se volta para os Estados capitalistas democráticos existentes. Usá-los como modelos produz uma visão bastante limitada do que a democracia é capaz de ser. Os anarquistas, em contraste, focam nas revoluções históricas (por exemplo, Dolgoff, 1974; Kropotkin, 1986; Voline, 1974).

ANTI-DEMOCRACIA ANARQUISTA

A relação entre anarquismo e democracia foi levantada do outro lado por Errico Malatesta, o grande anarquista italiano (ativo de 1870 a 1930). Ao contrário da tendência individualista e anti-organizacionista dentro do anarquismo, Malatesta defendia que os anarquistas se organizassem e promovessem a auto-organização dos trabalhadores. Na década de 1920, ele escreveu duas breves peças sobre nosso tópico, com o tema resumido no título de uma, “Neither Democrats nor Dictators: Anarchists” (Malatesta, 1995; pp. 73-76 e 76-79).

Ele acreditava que o Estado democrático capitalista era preferível a uma ditadura, apenas porque os anarquistas podiam usar sua ideologia contra ele. “(…) a pior das democracias é sempre preferível, mesmo que apenas do ponto de vista educacional, do que a melhor das ditaduras (…) A democracia é uma mentira (…) é, na realidade, oligarquia, isto é, governo de poucos em proveito de uma classe privilegiada. Mas ainda podemos lutar em nome da liberdade e da igualdade (…)” (p.77).

Como se pode ver, grande parte da oposição de Malatesta à democracia é na verdade direcionada contra a ideologia democrática que atua como uma racionalização em defesa do Capitalismo e do Estado. Mas ele confunde isso com uma denúncia do próprio conceito de governo da maioria. “(…) não somos favoráveis à um governo de maioria ou de minoria; nem à democracia nem à ditadura (…) Somos (…) pelo livre acordo (…) Somos pela anarquia” (p. 76).

O conceito de democracia é “o governo da maioria, com respeito aos direitos da minoria”. Sob o Capitalismo patriarcal, “governo da maioria” significou o governo da minoria dominante que molda a opinião pública majoritária por meio do controle da mídia e de outras formas. Os “direitos das minorias” têm sido frequentemente invocados contra qualquer tentativa da maioria de tomar qualquer parte da riqueza dos ricos. Mas o “governo da maioria” e os “direitos das minorias” também têm gerado críticas contra as minorias governantes e a massa preconceituosa que as segue.

Malatesta aponta que a maioria muitas vezes se engana, em comparação com a minoria mais esclarecida. Se a maioria governa, ele argumenta, ela deve ditar à minoria, forçando sua vontade sobre a minoria. Isso é tão ruim quanto o governo da minoria. Como se pode confiar na maioria para respeitar os direitos da minoria se a maioria governa sobre a minoria? Por essas razões, Malatesta rejeita o governo da maioria como princípio. Essas opiniões devem ser respondidas.

Os defensores das liberdades civis há muito argumentam que existem muitas áreas da vida onde a tomada de decisão coletiva não é necessária. Nessas áreas, como orientação sexual, a maioria não tem o direito de impor ordens à minoria. Um grande número de pessoas hoje respeitaria os direitos dos “adultos em consentimento” de se envolver em práticas sexuais minoritárias. Tal como Thomas Jefferson defendeu a liberdade religiosa, “(…) não me prejudica o meu vizinho dizer que há vinte deuses ou nenhum Deus. Não afeta meu bolso nem quebra a minha perna” (Dewey, 1957; p. 111). Os anarquistas buscam expandir amplamente a gama de associações voluntárias para tais atividades auto-escolhidas, atividades fora do reino do governo da maioria.

No entanto, ainda existirão áreas que requerem uma tomada de decisão coletiva. Por exemplo, uma comunidade pode precisar decidir se vai construir uma nova estrada. O consenso seria o melhor, mas muitas vezes as pessoas discordam. A maioria e uma minoria podem polarizar sobre este assunto. Isso não pode ser tratado como uma questão de associação voluntária (embora os dissidentes sejam sempre livres para buscar e ir para outro lugar – mas outras comunidades também devem decidir se querem construir estradas). Ou a estrada está construída ou não está. Se uma maioria se formar para a construção de estradas, então a minoria contrária pode ser convidada a participar, para ter sua parte no trabalho ou na riqueza social. Em qualquer caso, eles terão que viver na comunidade com uma estrada nova, indesejada por eles.

Isso não é coerção da polícia, mas da realidade. A decisão teve que ser tomada coletivamente. Se não for determinada pela maioria dos votos, como seria? Uma comunidade pode decidir que tais decisões devem ser unânimes. Mas e se todos não concordarem? Talvez a minoria chegue a vetar a proposta, já que não é unânime. Então é a minoria que manda, impedindo a maioria de seguir seu caminho. Como alternativa, a minoria concorda em ficar calada, para “não bloquear o consenso”. Isso lhes nega o direito de serem abertamente considerados como discordantes. Não estou negando o direito de qualquer comunidade ou associação de decidir confiar no consenso, apenas argumentando que o governo da maioria não é autoritário em princípio.

Malatesta pergunta quais direitos a minoria tem sob o governo da maioria. Pessoas com opiniões minoritárias têm o direito de participar de todas as tomadas de decisão. Eles têm o direito de tentar obter a maioria para seus pontos de vista. Se perderem um voto, podem continuar a participar e tentar se tornar a nova maioria. Talvez no futuro eles venham a persuadir um número suficiente de membros da comunidade de que a nova estrada foi um erro e a derrubá-la ou, pelo menos, não construir novas. Eles podem ser a maioria em outras questões.

Os direitos das minorias são uma parte essencial do governo da maioria. Se os membros de uma comunidade não têm a chance de ouvir todas as opiniões, incluindo as minorias, então não se pode dizer que eles realmente decidem as questões. A supressão das visões da minoria na democracia capitalista (seja pela força, seja pela falta de dinheiro ou de cobertura na mídia) é uma maneira pela qual a minoria dominante cria a ilusão de que a maioria está governando.

Ao mesmo tempo, os direitos das minorias são mais seguros quando a maioria governa, ao contrário de qualquer ditadura minoritária. O governo da maioria e os direitos das minorias não são opostos, mas exigem um ao outro.

À democracia, Malatesta contrapõe o “acordo livre”. Mas não existe tal oposição. As pessoas podem concordar livremente em formar associações voluntárias – seja para trocar selos ou para produzir sapatos. Mas então como eles irão administrar as associações? Presumivelmente, as pessoas não concordarão totalmente em tudo. Deve haver algum processo diferente de dissolver as associações cada vez que todos não concordam. Esse processo é a democracia. Os anarquistas não são favoráveis à um Estado democrático, mas podem ser favoráveis à uma sociedade democrática, à democracia como um “modo de vida”. O anarquismo é democracia sem Estado.

IMPORTÂNCIA DO ANARQUISMO PARA A DEMOCRACIA

Por que é importante? Podemos ver o que acontece quando os radicais tentam desenvolver uma teoria democrática sem incorporar o anarquismo. Frequentemente, é pouco mais do que o “socialismo democrático” reafirmado, isto é, socialismo de Estado reformista. Por exemplo, Radical Democracy (1996) de David Trend é composto principalmente de artigos de membros do Democratic Socialists of America. Eles ficam um tanto constrangidos com a identificação de seu socialismo com o estatismo, mas ainda não têm alternativa a usar o Estado existente para intervir na economia.

Uma teoria democrática verdadeiramente radical negaria fortemente que o Estado capitalista patriarcal / racista existente é realmente democrático, se oporia à toda a máquina estatal socialmente alienada e burocrática-militar, e proporia em seu lugar uma federação democrática de assembleias e associações. Qualquer coisa menos que isso irá encobrir a natureza não democrática – antidemocrática – de nossa sociedade e seu Estado.

Uma tentativa significativa de desenvolver uma teoria democrática radical que inclua o socialismo foi feita por Chantal Mouffe e outros associados a ela. Ela tem certeza de que sua “democracia radical” não é uma alternativa ao Estado existente, mas uma extensão dele. “O que defendemos é uma espécie de ‘democracia liberal radical’– não a apresentamos como uma rejeição do regime democrático liberal ou a instituição de uma nova forma política de sociedade” (1996; p.20). Seu objetivo é “(…) estender a democracia dentro da estrutura de um regime liberal-democrático” (1992; p. 3). Ela é crítica da democracia direta ou comunitária como objetivos.

Na verdade, a única vez em que ela parece lidar diretamente com o Estado é numa discussão sobre aqueles que opõem “sociedade civil” a “Estado” (em Laclau e Mouffe, 1985). Não é difícil mostrar que a “sociedade civil” – o reino do capitalismo, patriarcado e racismo – não é a base para a salvação em relação ao Estado. Mas a “sociedade civil” é internamente antagônica, baseada nas tensões entre oprimidos e opressores, incluindo as lutas de classes, gêneros e raças, entre outros. Essa pressão de baixo por liberdade é a fonte de todo o progresso social.

Mouffe afirma que o Estado também tem antagonismos internos, o que implica que é errado rejeitar o Estado como tal. Ela observa, por exemplo, que o Estado pode aprovar legislação contra a discriminação de gênero ou em defesa dos camponeses contra os proprietários de terras em países pobres. Isso é verdade, mas são como os aumentos salariais que a gerência de uma empresa pode oferecer a seus trabalhadores. Pode ser porque os trabalhadores a forçaram ou porque é clarividente e ofereceu benefícios antes que os trabalhadores formem um sindicato – mas seja qual for o motivo, a gerência continua capitalista e inimiga dos trabalhadores. Existem divisões dentro da gerência, como dentro do Estado, mas elas são sobre a melhor forma de suprimir e / ou cooptar os oprimidos. Nem a gerência nem o Estado são amigos dos trabalhadores, das mulheres ou dos camponeses.

Laclau e Mouffe acrescentam que há momentos em que o Estado se opõe à “sociedade civil”. “(…) isto é o que acontece quando o Estado se transforma em uma excrescência burocrática imposta pela força ao resto da sociedade, como na Europa Oriental, ou na Nicarágua dos Somozas (…)” (p. 180). Ou seja, em países como os EUA, onde a maioria apoia o regime, o Estado não é, afirmam, uma excrescência burocrático-militar sobre a sociedade. Esta é uma opinião de muitas pessoas, inclusive a maioria dos EUA. Pode-se argumentar, mas não vejo como isso pode ser chamado de “radical”.

IMPORTÂNCIA DA DEMOCRACIA PARA O ANARQUISMO

Se a teoria democrática precisa do anarquismo, então o anarquismo precisa da democracia. Existe uma tendência autoritária na história do anarquismo. Começa com Proudhon, que era racista, antissemita, patriarcal e que se imaginava governando a França como ditador de sua federação de associações (Draper, 1970). Bakunin, o segundo “pai do anarquismo”, continuou tentando organizar sociedades secretas que manipulariam as organizações de massa nos bastidores (Guerin, 1970; Woodcock, 1962). Terroristas anarquistas e atiradores de bombas (incluindo o Unabomber) agiram como heróis de elite sem (ou contra) o povo.

De lá para cá, os anarquistas frequentemente capitularam tanto ao reformismo (apoio ao Estado atual) quanto às ditaduras revolucionárias. Proudhon acabou sendo eleito para o parlamento francês. Kropotkin, o terceiro “pai do anarquismo”, tornou-se um defensor entusiasta dos Estados imperialistas ocidentais na Primeira Guerra Mundial. Goodman (1965) e Chomsky (1994) poderiam ser chamados de reformistas. Este apoio anarquista ao reformismo tornou-se um assunto sério quando os anarquistas espanhóis da década de 1930, diante de uma situação revolucionária, se tornaram ministros do governo capitalista liberal. Por outro lado, muitos anarquistas uniram-se aos bolcheviques após a Revolução Russa. Na década de 1960, os anarquistas-pacifistas da revista Liberation tornaram-se apologistas de Castro e Ho Chi Minh. Outros exemplos são facilmente encontrados.

O marxista Hal Draper argumentou que o problema básico do anarquismo é sua suposta rejeição da democracia. “(…) Libertarianismo anarquista (…) não está preocupado com a conquista do controle democrático de baixo para cima, mas com a destruição da ‘autoridade’ sobre o ego individual, mesmo a versão mais extremamente democrática de autoridade que se possa imaginar” (1969; p. 93). Ele cita Proudhon: “Qualquer homem que não puder fazer o que quiser e tudo o que quiser tem o direito de se revoltar, mesmo sozinho, contra o governo, mesmo que o governo seja todo mundo” (ídem). Draper comenta: “O único homem que pode desfrutar desta ‘liberdade’ ilimitada pela sociedade é um déspota” (ídem).

Embora exista um lado autoritário da tradição anarquista, seria ridículo negar que também exista um lado democrático-libertário, tanto na teoria quanto na prática. Quer usem ou não a palavra “democracia”, os socialistas-anarquistas há muito defendem a substituição das instituições burocráticas por associações autônomas, isto é, pela democracia (e, como argumentei, uma forte defesa dos direitos individuais e das minorias não necessariamente contradizem a democracia ou o governo da maioria). Os anarquistas organizaram democraticamente as massas, sindicatos trabalhistas, exércitos populares e coletivos de camponeses autogeridos e cooperativas de trabalhadores. O marxismo também tem lados democráticos e autoritários, mas a tendência dominante de suas alas principais, a social-democracia e o stalinismo, tem sido o estatismo autoritário (como Draper concordaria). Entre o marxismo e o anarquismo, é o anarquismo que possui a teoria e a tradição mais democráticas e amantes da liberdade.

Além disso, os anarquistas têm uma relação diferente com seus teóricos. Ao contrário do marxismo e do leninismo, o anarquismo não leva o nome de suas figuras históricas. Não tem escritos sagrados comparáveis a “O Capital” ou “Estado e Revolução”. Não tem problema em rejeitar os erros de seus fundadores.

No entanto, Draper tem um ponto importante. O anarquismo, se não for inerentemente hostil à democracia, tem uma relação contraditória com ela. As tendências individualistas são as piores nesse aspecto, como foi reconhecido pelos socialistas-anarquistas. O que é necessário é que os anarquistas identifiquem o anarquismo como uma extrema democracia revolucionária. As fraquezas do anarquismo são reais, mas podem ser corrigidas por dentro da tradição anarquista.

REFERÊNCIAS

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Tradução do Inglês ao Português: Arthur Castro




Fonte: Ithanarquista.wordpress.com